[Especial Teatros] Teatro pós-dramático

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Hans-Thies Lehmann

Por: Alexandre Cristovam
O teatro se distingue de outras linguagens artísticas por possuir uma característica marcante que é o aqui-agora, algo que está acontecendo naquele instante, naquele momento, está vivo e sendo “mostrado” por um ator dentro de um mesmo espaço e tempo.

Esta é a arte do improviso, o ator precisa estar sempre em risco para que seu trabalho se torne cada vez mais vivo, pulsante, pois são nesses momentos que as fragilidades, a “humanidade” são apresentadas. O prazer de estar em cena é um fator determinante na trajetória de um ator. Os prazeres das personagens devem se misturar com os dele. Essa comunhão é que da vitalidade para o corpo e é o que atraí o olhar do espectador. Um corpo sem vitalidade não desperta interesse, o ator deve sempre acessar dispositivos que mantenham esse corpo vivo, intrigante, instigante. Isso que diferencia o ator de teatro, de um ator de cinema, o calor humano, este corpo vivo que se apresenta diante do público.

O ator precisa ressoar em cena, todo material que ele entra em contato deve passar pelo seu corpo e reverberar. É preciso encontrar o punctum, que é ponto de ressonância em que tudo aquilo que o homem entra em contato, atinge-o e ressoa nele. A busca por novos códigos não reconhecíveis é um caminho a ser perseguido, essa possibilidade de revelar aquilo que não pode ser dito através de novas experiências desse ator, pode acessar vias do inconsciente do espectador que antes não foram acessadas. A fenomenologia diz que a imanência é tudo aquilo que pode ser visto e a transcendência é tudo aquilo que está além do que pode ser visto; o ator deve trabalhar dentro deste último campo, não se limitando àquilo que lhe é reconhecível, é preciso alargar o horizonte. Portanto quanto mais intenso for o envolvimento do ator com o material proposto mais o público também se envolverá.

O corpo (entende-se como corpo: corpo e voz, não estão desconectados) é a ponte de ligação entre o ator e o público. É neles que são criados, escritos e lidos sentidos e significados que revelam e contam a fábula. “O corpo vivo é uma complexa rede de pulsões, intensidades, pontos de energia e fluxos, na qual processos sensório-motores coexistem com lembranças corporais acumuladas, codificadas e choques”, é preciso reconhecer esses impulsos e soma-los na criação da cena, saber jogar com eles a favor da encenação e não esconde-los do jogo cênico. Trabalhar com a concretude de nosso corpo, com essas pulsões é que mantém o ator performático vivo em cena, atraindo e aproximando o público de uma realidade onde não se esclarece se é uma personagem ou o próprio ator; diferente do ator dramático que trabalha com as abstrações da personagem, seus problemas psicológicos, com conflitos de ordem “espiritual”. O teatro pós-dramático “segue uma via que conduz da abstração para a atração”.

O teatro, a partir da década de sessenta, sofreu uma grande transformação; influenciado pela performance. O que o termo, denominado por Lehmann, teatro pós-dramático opera, em primeira mão, é a quebra do teatro com o drama. Vinculo este que foi tomado como sendo de natureza indissolúvel: como conceber um teatro sem drama? “É possível entender o teatro pós-dramático como uma tentativa de conceitualizar a arte no sentido de propor não uma representação, mas uma experiência do real (tempo, espaço, corpo) que visa ser imediata: teatro conceitual. A imediatidade de toda e uma experiência compartilhada por artistas e público se encontra no centro da arte performática”.

O que se pretende é a quebra da ilusão, retirar o público de uma posição “voyeurística”, para colocá-lo numa condição de parceiro participante da ação. A performance prima pelo êxito da comunicação, assim como o ator pós-dramático. É importante lembrar que o teatro pós-dramático é um conceito e portanto não se pode tratá-lo como uma linguagem cênica.

Como um ator pode viver uma experiência real, diante de um público e não representar? A partir do momento que um ator entra em cena, “ele passa a ‘significar’ (virar um signo) e com isso ‘representar’ (é o próprio conceito de signo, algo que representa outra coisa) alguma coisa, podendo ser isto algo concreto – o qual se tem nomeado ‘personagem’ – ou mesmo abstrato (como figuras que aparecem em peças surrealistas)”. Fazer esse tipo de distinção não é fácil, primeiro que o ator não se deixa ser possuído pela personagem e assim perdendo a sua identidade, seu ego; e segundo que nenhuma pessoa deixa de atuar, pois não existe um estado de espontaneidade pura; se existe um pensamento prévio, há uma formalização e uma representação; por mais que exista um lado nosso que “age e fale”, existe outro que nos “observa”. “É interessante que nessa situação paradoxal os dois extremos se tocam: eu não sou mais ‘eu’ e ao mesmo tempo eu não ‘represento’”.

O caráter ficcional é que dá a um espetáculo a característica de representação, todos os elementos cênicos, incluindo os atores, estão voltados para situação ficcional e o público é colocado na postura de espectador da história. Tudo remete ao imaginário. O que gera um paradoxo: quanto mais tento representar realisticamente uma personagem, mas ilusão eu crio para o espectador. Quanto mais me distancio da personagem, mais quebro com a ilusão e com isso possibilitando a entrada num outro “espaço”, passa a não ser uma representação e sim uma outra coisa, um rito, uma demonstração… O ator quando deixa de somente representar uma personagem, ele abre espaço para outras possibilidades de encontros com o público. “À medida que se quebra com a representação, com a ficção, abre-se espaço para o imprevisto, e portanto para o vivo, pois a vida é sinônimo de imprevisto, de risco”(7).

Trabalhar com o imprevisto, com uma lógica de pensamento não aristotélica possibilita o transito em diversas linguagens diferentes para alcançar o êxito da comunicação direta com o público. É preciso que a relação entre o espectador e o ator seja de total comunhão. Mostrar outras perspectivas de como se ver o mundo amplia o horizonte desse que assiste o espetáculo. Bob Wilson utiliza-se o recurso de câmera lenta, cujo “movimento do corpo é tão desacelerado que o tempo de seu decurso parece como que ampliado com uma lupa, também o corpo é forçosamente exposto em sua concretude, como que focado pela lente de aumento do observador e ao mesmo tempo ‘recortado’ do continuum espaço-temporal como objeto artístico”.

Outros elementos recorrentes no teatro pós-dramático são: a transformação do corporal do ator em um objeto-homem, uma escultura viva, revelando uma estreita aproximação com as artes plásticas, esse elemento escultural e iconográfico se junta ao aspecto ritualístico da atuação, estar exposto sem nenhuma máscara, faz com que o ator se torne a vítima sacrificial, expondo suas fragilidades e aflições perante aos olhos de julgamento de quem o assiste, assim na medida que o ator se encara como uma pessoa vulnerável, o espectador se torna consciente de uma outra da parte da encenação que até então era oculta no teatro tradicional, esse ato de ver o ator exposto que o coloca como um objeto escultural; também o corpo pós-dramático, é conhecido como o corpo do gesto, influência direta da dança, pois essa “não formula sentido, mas articula energia; não representa uma ilustração, mas uma ação”, neste sentido Lehmann define o gesto com “aquilo que fica em suspenso em cada ação voltada para um objetivo: um excedente de possibilidade, a fenomenalidade de uma visibilidade como que ofuscante, que ultrapassa o olhar ordenador – o que se torna possível porque nenhuma finalidade e nenhuma reprodutibilidade enfraquece o real do espaço, do tempo e do corpo”; a relação com o objetos com o corpo humano tomou outras dimensões, relações são estabelecidas, que anteriormente só era possível no teatro infantil, elevando-os à categoria de sujeito despertando a sensação de nós não somos somente seres vivos, mas também, em partes, objetos; a antropomorfização das figuras de animais no comportamento dos homens, transmite uma dimensão mítica, que vai para além do drama humano; a utilização de elementos tecnológicos como: slides, datashow, projetores; vem sendo cada vez mais utilizados nos espetáculos, remetendo a uma realidade ou incorporado a cena com outras finalidades, quanto mais recursos a tecnologia oferecer (imagéticos, sonoros…) mais o teatro incorporará na cena contemporânea.

Um ator pós-dramático precisa estar apto para transitar em diferentes tipos de linguagens, saber de técnicas diferentes (acrobacia, canto, dança, malabarismos, tocar algum instrumento) para se alcançar o desejado. O leque de possibilidades é vasto, portanto quão mais inteirado dos problemas atuais e também das técnicas que possam ampliar o horizonte de um espetáculo, consequentemente, do espectador, o objetivo do teatro pós-dramático, e também de qualquer formas teatrais, mais a comunhão, o encontro, entre o público e o ator se dará com êxito.

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