[Repertório] Precisamos falar sobre Gordofobia

Resultado de imagem para nhonho chavespor: Juliano Bonfim

Vamos falar um pouco sobre uma coisa que parece não incomodar o quanto deveria: a retratação rasa e insípida que temos visto de pessoas gordas no Teatro e na TV.

Não é de hoje que, felizmente, as minorias ganham espaço nas mídias convencionais (principalmente televisão). Contudo, ainda parece existir dificuldade em retratá-las. Esses personagens caricatos acabam por perpetuar estereótipos e construir uma base comum utilizada por muitos escritores, que não se dão ao trabalho de tentar mudar. E, quando tentam, não parecem querer colocar muito esforço pra que aconteça da melhor maneira possível.

A gordofobia não é apenas pressão estética, ela está enraizada na estrutura da sociedade e atua todos os dias para manter à margem quem não se enquadra no tal “peso ideal”. Todos os dias, pessoas gordas têm o seu direito de ir e vir cerceado – talvez você nunca tenha percebido como o espaço das catracas dos ônibus é minúsculo e as poltronas do avião?! Têm sua capacidade intelectual questionada – muitas vezes a pessoa gorda é a mais capacitada em uma entrevista de emprego, mas ela é gorda. São impedidas de simplesmente se divertirem em um bar tomando uma bebida – ou você acha que todas as bundas cabem confortavelmente naquelas cadeiras de plástico ou naquelas com braços. Você não pode imaginar como é chegar de mãos dadas com seu companheiro ou sua companheira – que é magro (a) – a um lugar público, os olhares espantados se perguntam em sussurros entrecortados: esse cara é doido, o que é ele vê nela, será que é rica? Afinal, não se pode amar a mulher gorda publicamente.

Gordofobia na TV

E dá ainda mais raiva quando um autor cai numa dessas. Foi o que aconteceu quando Rebel Wilson recebeu sinal verde da ABC para uma sitcom. A premissa (cumprida pouquíssimas vezes) de Super Fun Night: três amigas têm uma noite superdivertida uma vez por semana. Nem vamos nos ater ao roteiro superficial e nos desconfortáveis clichês da série. Vamos focar na decepção gigantesca de ver a interpretação de Wilson para Kimie e sua turma.

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Fat Amy

Não temos que nos culpar por nossas expectativas terem sido altas. Rebel tem em seu currículo uma ótima amostragem de seu humor inteligente. Suas personagens, assim como ela, sabem do corpo que têm e não se veem presas a um modelo físico por tantas almejado. Talvez o maior exemplo seja Fat Amy de Pitch Perfect.

Mas, ok, talvez Wilson só tenha apostado numa forma (manjada) para mostrar a evolução da personagem. Talvez Rebel só quisesse deixar sua criação mais low profile. Talvez isso tenha sido feito porque “a audiência não iria comprar uma mulher gorda bem resolvida com seu corpo”. Talvez os executivos da ABC forçaram Wilson a mudar sua criação ou não iriam comprar a série. E talvez ela tenha cedido.

Não estamos reclamando de personagens losers. Amamos (barra somos, risos) os underdogs e suas histórias de superação. O que chateia é a inconsistência nisso tudo. Em alguns episódios, Kimie (Wilson) mostra que ama seu corpo, em outros se entristece por ser como é. Essa dicotomia seria ótima e plausível, se fosse melhor trabalhada. Como foi, pareceu apenas falta de tato com a história, suas ramificações e consequências. E não é só escorregada técnica, tem coisa implícita nisso. Como as piadas repetitivas sobre o sobrepeso da protagonista. Afinal, há um limite de vezes que conseguimos ouvir as mesmas coisas.

Esperávamos, no mínimo, um forte “Não é problema nenhum ser gordo”, porque, bem, não é problema nenhum ser gordo. Parece que, claro, as piadas sobre peso seriam feitas, mas podiam ser um pouco mais inteligentes. Ou é pedir demais? Não, não é pedir demais, porque já tivemos demonstrações dessa possibilidade de humor vindas não só da própria. Mas parecem querer se acomodar novamente.

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Tammy

Um exemplo claro dessas coisas que vêm se repetindo é o filme “Tammy” de Melissa McCarthy. Nele, a graça está toda focada no fato de Tammy (Melissa) não conseguir fazer “coisas normais”, como  pular uma bancada. Não negamos que nunca rimos de algo assim, mas é preocupante essa sensação de que essas pequenas piadas não querem ser, e pelo visto não serão, repensadas.

Melissa também fez muito sucesso na série Mike & Molly, ao lado do ator Billy Gardel. A série, que durou 6 temporadas, foi toda focada no fato dos dois personagens serem gordos, eles se conhecem em uma sessão de Comedores Compulsivos Anônimos e juntos começam a sua jornada para perderem peso.

This is Us, a série queridinha dentre os lançamentos de 2016, tem nos deixado encantadas com sua arrojada disposição para problematizar as relações humanas. Com um roteiro contundente e um elenco escolhido a dedo e totalmente entregue aos dilemas propostos, a série da NBC tem arrancado suspiros lá e aqui.

No entanto, uma notícia publicada a respeito de uma cláusula noPrecisamos falar sobre a gordofobia na TV contrato da atriz Chrissy Metz, a Kate, nos trouxe de volta à realidade excludente e padronizada do showbusiness. De acordo com a própria atriz, ela precisa perder peso durante os acontecimentos do enredo.

Na série, Kate é uma mulher obesa que não somente tenta emagrecer, mas também lidar com a realidade de ser uma mulher obesa em uma sociedade machista, preconceituosa e excludente, que acredita que pessoas gordas não são dignas de serem felizes, amadas e bem-sucedidas.

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Fabiana Karla

São muito poucas as personagens gordas na tv norte-americana que não são apenas escada ou alívio cômico. Em geral a gorda é a amiga engraçada, a melhor amiga desengonçada, a vilã sem escrúpulos. A tv brasileira também não foge à regra.

Um caso recente foi a personagem Perséfone de Amor À Vida. Sabemos quantos assuntos de marketing social a novela quis trabalhar e falhou (enquanto foi bem sucedida em outros) e a moça, vivida por Fabiana Karla, foi um deles. Sempre era mostrada como uma pessoa legal, com quem todos os problemas (principalmente sexuais e de relacionamento) tiveram exclusivamente origem em seu peso. No final. o que era pra ser um personagem que daria a volta por cima na auto-estima, acabou sendo só mais um gordo cômico.

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Aline Dias, Joana

Em fevereiro a novela Malhação pisou na bola, no episódio em questão, o personagem Giovane acompanha a namorada, Joana, durante um lanche, e se mostra incomodado com o fato de a moçar ter aparecido de biquíni em um ensaio fotográfico. Depois de ela lhe explicar que aquilo fazia parte do seu trabalho (e que, inclusive, muito mais gente a vê de biquíni na praia), ela conta querer comer um churros.

Giovane – Meu deus, você é magra de ruim. Promete uma coisa?
Joana – Depende
Giovane – Promete que você vai ficar bem gorda para os caras pararem de chegar em você?”. (!!!!)
Joana – Aha! Gorda! Para você me largar? Nada disso.

Além de gordofóbico, o comentário de Giovane ainda é machista – afinal, querer controlar a namorada dessa forma não é saudável.

No final de 2014, Leandro Hassum fez uma cirurgia de redução do estômago e, deResultado de imagem para Leandro Hassum lá pra cá ele conta que ainda houve críticas à sua nova aparência e, entre elas, a de que teria ficado “sem graça” ao deixar de ser gordinho. Sem papas na língua, Hassum rebate esse tipo de comentário. “Sou um comediante muito à frente da minha barriga. Estou a mesma coisa, não tem diferença nenhuma na minha graça. O que muda é o tipo físico. Ser gordo era uma das minhas piadas e tenho muitas outras. Algumas pessoas  escrevem que fiquei feio e acabado. Isso é uma extrema falta de educação e respeito!”.

 

O revival de Gilmore Girls da Netflix, Gilmore Girls: A Year in the Life, era para ser um evento especial para os fãs da série, até que em uma cena, do nada, sem nenhum motivo aparente, a câmera mostra um homem gordo usando trajes de banho em uma festa na piscina. Risos. Rory e Lorelai fazem caretas e tentam não olhar para a figura em sua frente. Mais risos. As duas fazem uma piadinha sobre o peso dele. Pronto, o alívio cômico que o episódio Summer precisava em sua introdução. A cena é totalmente desnecessária, desrespeitosa e absurda.

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Ingrid

Esconder a pessoa gorda ou trata-la como anormal, contribui para esse sentimento coletivo de que ser gordo não é natural ou aceitável. Que a pessoa gorda não está apta a viver a vida plenamente e que o objetivo da vida dela, precisa ser o emagrecimento.

Hoje vemos poucos personagens gordos sendo tratados de maneira normal, sendo muito mais que uma piada, uma é a Rae Earl, de My Mad Fat Diary, outra personagem é a Eleanor de Eleanor & Park e temos também a Ingrid, da web-série de animação brasileira Girls In the House. Ingrid inclusive participou de um concurso de biquíni na web-série e ganhou.

Todas as outras que me vem à cabeça são sempre “A” piada, o alívio cômico da história ou a personagem que vai viver um makeover e ficar magra, já que é isso que a sociedade quer. Seja magra, pois se você não for magra você não é bonita e você não vale à pena.

Ser gorda numa sociedade extremamente gordofóbica é ser lembrada todos os dias que nosso corpo é a piada, é rejeitado e que devemos ser invisíveis. Mas não importa quantas pedras joguem em nós, continuaremos resistindo.

Gordofobia no Teatro

No teatro a fórmula é a mesma… quantas personagens acima do peso você já viu no papel de mocinhas ou mocinhos? Já viu príncipes ou princesas gordos? O gordo é sempre a piada, ou o personagem secundário, a parte cômica do espetáculo ou ainda o vilão recalcado, sem contar os inúmeros shows de stand-up que lotam as suas casas com piadas gordofóbicas.

O argumento da saúde

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Mike & Molly

“Você deveria emagrecer, só estou falando isso porque me preocupo com a sua saúde”. Não, você não se preocupa com a saúde de ninguém. Você está apenas reproduzindo um discurso enlatado que aprendeu por aí, pois a pessoa gorda não se encaixa no padrão de beleza que te ensinaram a desejar.

É  necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesmo e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las“, Jarid Arraes

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”.

Estivéssemos preocupados com a saúde uns dos outros, já não teríamos mais refrigerantes à venda no mundo e, digo mais, se a preocupação com saúde e bem-estar de outras pessoas fosse real, toda a sociedade já teria se mobilizado contra os altíssimos níveis de agrotóxicos que consumimos todos os dias. Ou, ainda, você estaria revoltadíssima com aquela sua amiga que usa o celular enquanto dirige e coloca não só a vida dela em risco como a de todos em volta.

Assim, voltando ao início da nossa conversa, quando falávamos da cláusula contratual da atriz Chrissy Metz, não é possível pautar-se apenas por sua aparência física para determinar o quão saudável e ativa ela é ou não. Mas é preciso apenas um pouquinho de empatia para imaginar o quão pesado é o fardo de não encaixar-se nos ideais de beleza de uma sociedade e não poder ver-se representada em nenhum meio de comunicação de forma amigável, responsável e digna.

Além disso, a busca incessante pela magreza a qualquer custo e por um ideal de beleza inatingível, possivelmente colabora para uma sociedade cada vez mais problemática e doente, como demonstra bem essa pesquisa que afirma que: “Meninas de apenas 7 anos já se sentem pressionadas a ter aparência perfeita, diz estudo”.

Amar o seu corpo e cada peculiaridade dele, em um mundo que nos ensina cotidianamente a nos odiar, é fazer uma revolução todos os dias.

FONTES:
QDNG
Séries Por Elas
Revista Pixel
M de Mulher
EGO

Um comentário

  1. nossa, material perfeita, sou atriz e gorda, e essa é a minha reflexão diária, porque não temos espaço? só podemos atuar quando obrigatoriamente o perfil do personagem tem essa característica? alem de ser gorda, sou mulher e posso representar qualquer papel!

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