[São Paulo] Ágora Teatro comemora 20 anos

Em tempos onde grandes teatros da cidade de São Paulo fecham suas portas, como o Teatro Augusta, fazer 20 anos de vida é algo que precisa ser comemorado em grande estilo, e será.

Fundado em 1999 por Celso Frateschi, Sylvia Moreira e Roberto Lage em São Paulo, o Ágora, com sede própria no bairro do Bixiga, caracteriza-se não apenas pela produção e apresentação de montagens, mas também por organizar ciclos de debates, seminários, pesquisas, leituras e promover a publicação de obras que documentam esses encontros.

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Tendo como meta, nas palavras de seus idealizadores, o “teatro da menor grandeza”, o centro investe na encenação que privilegia o texto e o ator. Em sua primeira montagem em 1999 Frateschi atua em seu monólogo Diana, com direção de Lage, em que o personagem se apaixona por uma estátua. Em Tio Vânia, de Anton Tchekhov, no ano 2000, deixa claro o alinhamento estético do Ágora. Sobre o espetáculo, comenta o crítico Kil Abreu: “A adaptação/encenação de Frateschi faz um pacto com as limitações do espaço e acerta ao decidir pela economia dos meios, em favor de um investimento claro na direção dos atores. Os temas da peça, que essencialmente nada tem de antidramática, forçam o elenco a buscar firmemente a ‘sintonia fina’ da interpretação”.

Celso Frateschi

Também em 2000, o centro promove o seminário Odisséia do Teatro Brasileiro. Em 2002, é publicado livro com o mesmo título, organizado por Silvana Garcia, pela editora Senac São Paulo. Essa obra reúne os depoimentos de 17 integrantes do evento: Gianni Ratto, Fauzi Arap, Aimar Labaki, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio de Carvalho, Fernando Peixoto, Enrique Diaz, Eduardo Tolentino de Araújo, Antônio Araújo, João das Neves, Aderbal Freire-Filho, Márcio Souza, Luiz Paulo Vasconcellos, Paulo Autran, José Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal e Antunes Filho.

Em 2001, Frateschi assina a direção de Antes do Café, de Eugene O’Neill, em que atuam Jerusa Franco (como uma costureira) e Geraldo Lozzi (como o marido, desempregado e aspirante a poeta). As angústias do casal são sobriamente encenadas. Kil Abreu analisa a montagem: “Diante de um texto que pode ser facilmente pautado nos tempos do naturalismo televisivo, a montagem dirigida por Celso Frateschi preocupa-se em investigar seus próprios modos de construção da dramaticidade. Para criar uma partitura de ações físicas mais ou menos rigorosa (que neste caso têm importância essencial), os atores se amparam nos pequenos escombros-objetos de uma sala-cozinha e dialogam com o ambiente enquanto fazem a digressão difícil da afetividade abalada de seus personagens. Sem desprezar os poucos pontos de tensão indicados na dramaturgia, a direção do espetáculo preferiu caminhar ‘por fora’ dos grandes climas, centrando toda a atenção na angústia aparentemente ilhada da mulher. Tendo sempre como resposta o silêncio do outro, o personagem verbaliza todas as contradições do conflito e cria o chão necessário para que o desfecho seja verossímil”. Ainda em 2001, o centro promove outro seminário, o Ágora Livre Dramaturgias – que recebe o Prêmio Shell, na categoria especial, e se transforma em livro em 2006. O projeto agrega, em um período de três meses, dramaturgos que apresentam semanalmente textos inéditos como resposta a uma indagação: “O personagem está no palco ou na platéia?”. Desse evento, surge posteriormente o bem-sucedido Novas Diretrizes em Tempo de Paz, de Bosco Brasil. Outras peças do mesmo ciclo são montadas na sede do Ágora no ano seguinte.

A encenação do infantil Ufa, que Perigo!, de Augusto Francisco, sob a direção de Roberto Lage em 2002, mantém-se fiel aos propósitos estéticos apresentados em outras montagens. No retrato de uma família de hábitos repetitivos, automatizados, percebe-se um trabalho rigoroso de marcação de cena. Em 2003, duas produções do Ágora também dirigidas por Lage marcam sua trajetória: Os Justos, de Albert Camus, e Orgia, de Pasolini, esta realizada em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo – CCBB.

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Em 2005, Frateschi adapta o conto Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoïevski. O monólogo tem boa acolhida do crítico Sérgio Salvia Coelho: “Alternando uma ternura quase clownesca com uma energia selvagem, passa da catatonia ao furor sem nunca perder o fio da meada (…). Ajuda-o muito o cenário e o figurino feitos por Sylvia Moreira, que aliam pesquisa histórica com agilidade semântica de grande beleza, acompanhadas de perto pela luz sábia de Wagner Freire, a trilha precisa de Aline Meyer e as projeções inquietantes de Elisa Gomes. A direção de Roberto Lage tem a suprema elegância da invisibilidade”.

Em 2006, leva ao palco uma engenhosa encenação de Ricardo III, de Shakespeare, dirigida por Lage. Celso Frateschi, como o protagonista, reafirma sua potencialidade de intérprete. Esse espetáculo se dá após a reforma do Ágora, com ampliação da sala grande e construção de um espaço experimental com 100 lugares. Em 2007, Frateschi vê montado seu texto Estação Paraíso e dirige A Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade, de Tankred Dorst. A atriz Renata Zhaneta – como a chinesa que, diante do palácio do imperador, tenta convencer seus guardas de que o marido está entre eles e de que devem liberá-lo para voltar para casa – tem performance notável. A crítica Mariangela Alves de Lima elogia sua atuação: “Animada pela interpretação extraordinariamente matizada de Renata Zhaneta, a face dianteira do prisma é a do teatro dentro do teatro. (…) No trabalho [da intérprete], a tenacidade dos lutadores, que é um componente da personagem, aparece raramente, de modo inequívoco em apartes pronunciados com uma tonalidade grave e firme de voz. Sabe-se, desse modo, que há uma consciência madura e corajosa no comando do jogo e não se desvanece a ciência de que se trata de um combate vital”.

Comemoração

Diana | Foto: Edson Kumasaka
Diana | Foto: Edson Kumasaka

O ator, diretor e dramaturgo Celso Frateschi estreia nesta sexta-feira, 12, Diana, solo autoral que montou originalmente há 20 anos, em 1999, mesma época em que deu início aos trabalhos de seu Ágora Teatro.

Sob a direção de Rudifran Pompeu, a nova montagem atualiza a dramaturgia pensada originalmente a partir da obra Diário de um Louco, do russo Nicolai Gogol. Em cena, Frateschi vive um professor que, cansado do trato entre seres humanos, passa a se comunicar e se relacionar apenas com objetos, e desenvolve uma paixão pela escultura Depois do Banho, de Victor Brecheret, instalada no Largo do Arouche.

O espetáculo cumpre temporada até o dia 04 de agosto, no Teatro do Sesc Ipiranga, com sessões de sexta a domingo, às 21h30 (sextas), 19h30 (sábados) e 18h30 (domingos). Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia). Credenciados na rede Sesc pagam apenas R$ 6,00.

Para saber mais sobre o Ágora acesse:
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