[Coluna de Quinta] Mas pra ser ator precisa mesmo estudar?

Primeiramente, gostaria de dizer o quanto fiquei imensamente feliz e honrada em
colaborar com o Atores da Depressão nesta coluna semanal. Espero que gostem dos temas abordados aqui e sugestões serão sempre muito bem vindas!

Esta semana recebi um inbox via Facebook, no mínimo curioso e intrigante. A mensagem veio de uma pessoa que não conheço e foi bem carinhosa, mas um trecho dela me fez refletir muito sobre a carreira de ator. Vou transcrevê-lo aqui: “… não tenho cursos na área, mas gostaria muito de trabalhar como ator. Mas como ator tem que fazer curso, né? (…)”

Querido leitor, tem que “fazer curso” sim. E não é um só não. Tem que “fazer” muito curso! E ler muito, estudar muito, observar muito. Estudar a vida toda. Não conheço um único ator respeitado e talentoso que não estude constantemente. Se pretendemos representar em um mundo em constante transformação, é natural que tenhamos que nos atualizarmos para acompanhar essa evolução. E quando a personagem é de uma época passada, há a necessidade de conhecermos profundamente o mundo naquele tempo. E só existe um meio: estudando e lendo. Isso sem contar as personagens com habilidades específicas como, por exemplo, andar à cavalo, mergulhar ou dançar tango. Sinto decepcionar, mas nem sempre haverá um dublê para estas cenas. Então você, caro ator, deverá também aprender estas habilidades. As possibilidades são infinitas e isso é o que me fascina!

Suspeito que muitos não queiram se tornar atores, e sim famosos. E acreditem, há uma enorme diferença! Lembro que quando anunciei aos meus amigos e familiares que estava estudando teatro, a primeira pergunta que me faziam era quando iam me ver na novela. Ator tem que ralar muito e a maioria de nós não vai aparecer em novela alguma. Muitos porque simplesmente não gostam, seu habitat é o palco. Outros porque apesar de todos os esforços, a sorte não lhe sorriu de volta.

Cada um traça seu próprio caminho e ser ator também significa ser persistente. Aprender a “ouvir não” é intrínseco e, na maior parte das vezes, nem o “não” nós ouvimos, somos ignorados mesmo. Mas não desistimos, lá estamos nós de novo em um novo teste, buscando um novo patrocinador para o espetáculo, enviando novamente o material para aquele diretor, enfim… a batalha é eterna!

Para encerrar, compartilho as palavras da maravilhosa Fernanda Montenegro para Bianca Ramoneda no programa Starte, da Globo News: “Quando me perguntam o que eu diria para um ator que está começando, eu sempre digo: desista! Não passe perto, saia disso! Porque confundem teatro com liberdades, até com licenciosidades, com realização de sua opção sexual, com glórias, paetês, retrato no jornal, riqueza… porque aí já entra a televisão.

(…) porque todo mundo pode ser artista, agora ator não é todo mundo que pode ser. Não sabe o que é isso aqui. Então saia, saia da frente. Vai ser bancário, ser doutor, vai ser diplomata, vai ser gari. Agora se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte. Mas se não passar por este distanciamento e pela necessidade destas tábuas aqui, não é do ramo”.

Carla Buarque


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“Carla Buarque é atriz e usa a escrita como válvula de escape para as agruras do mundo”.

 
Blog / FacebookInstagram: @carlammp

 

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