[Coluna de Quinta] O ego do ator

Segundo o dicionário, “experiência que o indivíduo possui de si mesmo, ou concepção que faz de sua personalidade; em psicanálise, apenas a parte da pessoa em contato direto com a realidade, e cujas funções são a comprovação e a aceitação dessa realidade”.

Primeiro dia de aula, você já se super se identificou com aquele colega e batalharam todos os anos do curso juntos. Um ajudava o outro a decorar o texto, costuravam os figurinos enquanto tomavam vinho barato na madrugada, levaram juntos o videobook em todas as agências e produtoras, ele é realmente seu melhor amigo. Um dia você recebe um convite daqueles irrecusáveis e começa a receber certo destaque, mesmo que ligeiro e momentâneo, na profissão. Ele se afasta, quase não conversa mais com você, e você não consegue entender por que. Você, mesmo sem querer, machucou o ego dele.

“Que babaca! Achei que ele era meu amigo e ele está com inveja de mim”. Opa, calma aí! E se a história fosse ao contrário? Vocês batalharam juntos, ele conquistou algo e você continua ralando sem receber nada em troca. Como VOCÊ se sentiria? E isso, coleguinha, vai acontecer muitas vezes. Muitas vezes estaremos melhores e muitas vezes estaremos piores; se existe uma profissão com altos e baixos tão discrepantes, essa é a nossa! Mas lidar com isso tudo é muito difícil, algumas pessoas aprendem e outras não. É preciso muito pé no chão para lidar com os momentos que o seu melhor amigo vai muito bem, obrigada. E entender que a sua mágoa não é com o sucesso dele, e  sim com o seu momentâneo “fracasso”.

O ator é um ser que precisa se desnudar, se expor, muito mais do que qualquer outro trabalhador nesse mundo. Por estarmos assim tão expostos, temos uma incrível facilidade de nos machucarmos. E por lidarmos com os aplausos, temos uma facilidade ainda maior de inflarmos nosso ego ao limite. E o ego, esse serzinho que habita dentro de cada um de nós, pode crescer até o ponto de nos consumir, nos degradar até virarmos pó. Mas ele se faz absolutamente necessário.

Um ator sem ego está fadado ao fracasso. Primeiro porque trabalhamos com fé cênica e só conseguimos passar essa veracidade ao nosso público, se primeiro nós mesmos acreditarmos na nossa capacidade de tornar aquela história verdadeira. E para isso precisamos do ego. Lembra como comecei este texto? “Experiência que o indivíduo possui de si mesmo, ou concepção que faz de sua personalidade”. Eu preciso conceber que sou capaz, que sou um ator com talento para dar vida àquela personagem. Mas preciso também entender que isto não me dá o direito de passar por cima de alguém, de me tornar um intocável deus do Olimpo e, mais ainda, que sempre tenho onde melhorar como ator e como ser humano.

Buda chamava isto de Caminho do Meio. Ele ensinou aos seus discípulos que os extremos da vida deviam ser evitados. Sabe quando todos os atores estão somente em um canto do palco, sem propósito cênico algum? Eu sempre tenho a ideia de que o palco vai afundar e engolir todos eles. Equilíbrio é necessário, sempre!

 

Carla Buarque


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“Carla Buarque é atriz e usa a escrita como válvula de escape para as agruras do mundo”.

 
Blog / FacebookInstagram: @carlammp

 

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