[Quarta Parede] A Responsabilidade do Ator

Meu nome é Otávio e sou ator. Trabalhei e trabalho no teatro, mas também fiz participações pequenas no cinema e na televisão. Não tive tempo para constituir família. Não que seja errado um artista ter uma família, pois se ele quer, deve em frente, claro! Somente não deu certo para mim. Já tive dificuldades para pagar as minhas contas, trabalhei em peças que deram certo e outras nem tanto, mas o importante é que eu sempre estive na arte, e nela sempre busco novas experiências.

Fui trabalhar em um grupo de teatro, onde uma peça com referências claras à Commedia Dell’arte estava sendo montada. As pessoas do elenco eram bem bacanas e a diretora também, sendo ela jovem e enérgica. Mas havia na equipe uma atriz muito especial, uma bela moça de muito talento! Seu brilho no palco era algo que só ela possuía. Todos ali eram competentes, mas Romana era diferente, pois entendia rapidamente as marcas, construía a sua personagem sem grandes dificuldades. Era forte, intensa e única em cena. Mas havia um problema! Um problema que incomodava a todos, inclusive a mim! Faltava algumas vezes aos ensaios e por isso atrasava a produção. E a razão disso? Gripe, resfriado, ausência de voz, dores no corpo, ou algum problema pessoal… Pior ainda era em dias de feriado prolongado! Não queria nunca ter que ensaiar. Por causa da mãe, do marido, dos amigos, tudo era motivo para faltar! Suas atitudes não compensavam o talento…

Sou veterano, e nem por isso me sinto melhor que ninguém e apenas observava o caos que a atitude de Romana causava na produção. O que era para ser cômico estava se tornando trágico! A diretora ameaçou diversas vezes tirá-la do espetáculo, mas ciente das dificuldades de uma troca, pois a estreia já estava marcada, resolveu conversar com a jovem, a fim de resolver tudo na paz… Paz? Não deu certo! Faltando um dia para a estreia, Romana simplesmente não deu certeza que poderia estrear, pois uma queda ocasionou uma pequena luxação no seu pé esquerdo. Eu disse pequena, sem grandes e graves consequências! Porém… A peça teve a estreia cancelada, revoltando o elenco. Afinal, havia público confirmado e alguns inclusive já haviam pago o ingresso!

Desta vez, a diretora, utilizando- se de razões, que considero humanas e sábias, não retirou Romana do elenco pelo cano da estreia. Com a decisão, foi instaurado um clima de fofoca tão grande no camarim, entre os outros atores… O elenco chamava Romana de irresponsável, falsa e má profissional! Falavam dela pelos cantos, nas coxias, porém na frente dela agiam como se nada houvesse acontecido. Isso é errado! Um elenco infeliz, pode e deve se manifestar com o colega, desde de que não por cima das decisões da direção e sem esquecer o profissionalismo. Resolvi conversar com Romana, expus que muitos estavam insatisfeitos, disse que ela tem talento! E muito! Quando sobe no palco, realmente é brilhante. Mas escolheu ser atriz e doação e sacrifícios são necessários.

– Obrigada, Otávio. Obrigada mesmo pela sinceridade! Ao menos você veio conversar comigo e… Vou pensar em tudo o que disse. Amo muito atuar! Não quero desistir e nem sair da peça!

Romana me abraçou forte e, realmente estava sendo sincera. Mas esta jovenzinha, ainda tem muito que aprender e compreender…

Ser artista de verdade é ter um lado passional que muitas vezes não é compreendido pelos demais, é ser capaz de abrir mão do estilo de vida convencional. Esquecer os domingos em família, dias das mães, dos pais, e até mesmo o Natal, se assim for necessário. Um exemplo disso são os médicos! Se há um paciente precisando de uma cirurgia, ser examinado, ou simplesmente ser medicado, o médico não vai fazer seu trabalho porque é feriado e deseja “descansar”? Existem profissões que o respeito para com as pessoas deve ser maior do que o egoísmo e necessidades humanas e sentimentais. Isso é ser ator! E… O ator precisa aprender que não importa se eu não gosto da minha colega de cena, não importa se tive, ou tenho algum problema com o diretor, o importante é que assumi um compromisso e há um espetáculo a apresentar, ou uma gravação para fazer. Eu amo atuar e farei o meu melhor. Sempre! Atuamos por que amamos, mas atuamos também para o público e jamais devemos desrespeitá-los.

Enquanto eu puder estar de pé, nada me tirará do palco!

Texto de Luana Manso
Revisado por Zilma Barros
Foto: Marcio Saad (Ator)
Fotógrafo Responsável: Rodrigo Oliveira
*Os nomes dos personagens desta história, foram retirados do espetáculo e filme “Eles não Usam Black –tie”, de Gianfrancesco Guarnieri

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