[Quarta Parede] Na arte eu fujo. Mas não escapo.

Ele fechou a mão e lhe desferiu um soco tão violento que ela foi parar no chão. Quase sem forças, conseguiu por milagre levantar-se, mas não por muito tempo, pois ele a derrubou no chão novamente e chutou o seu ventre por diversas vezes. O que ele esperava? Que ela morresse? Não, nada disso, ele a levou para o quarto e… fez dela o que quis. Enquanto isso, eu tentava proteger minha irmã de oito anos de idade contra toda aquela violência. Meu pai de dia é pedreiro, aparentemente honesto e trabalhador. Sim, faz ótimos trabalhos e merece confiança por seu profissionalismo. Porém todos conhecem o seu lado negro. No fim do expediente, no bar do Zé Raimundo, bebe todas e quando chega em casa desconta tudo em minha mãe, uma dona de casa que fica o dia todo cuidando do lar e das suas duas filhas, eu de 17 e minha irmãzinha, no auge da sua infância.

Não tenho grandes estímulos. A escola é complicada, o ensino é ruim e nem consigo imaginar o que será de mim no próximo ano quando terminar o colégio. Já pensei em algumas alternativas para acabar com isso, mas penso em minha mãe e em minha irmã e logo desisto. Minha mãe, aliás, é muito medrosa, por isso não denuncia meu pai. Eu quis várias vezes fazer isso, porém, acho que temo o pior, pois já ouvi falar que as leis são ineficazes em relação às mulheres. Uma cesta básica, uma ajudinha social e basta, o homem está livre das acusações de agressões. No fundo torço para que algum vizinho denuncie a violência sofrida por minha família, mas percebo que tem gente que adora não enxergar certas coisas! É a tal da covardia, é a tal da política: se não mexeu comigo, pra que me mexer?!

Será que é assim em todos os lugares? Nas novelas, as mocinhas sofrem, mas sempre conseguem ser felizes. Em busca disso, de uma realidade diferente da minha, resolvi me inscrever para um curso gratuito de teatro. Na primeira aula senti uma paz muito grande, me transportei e esqueci dos meus problemas por um longo tempo… lá tornou-se o único lugar onde eu não me sentia pequena, um lixo, violentada pela realidade. Os problemas de minha casa eram grandes e continuaram assim, mas as artes tornaram-se um apoio em minha vida, a melhor terapia que poderia existir. Meu sonho sempre foi ser professora e vendo a dedicação do meu professor, meu deu vontade de estudar e fazer o mesmo que ele, mas não sei se dando aulas de teatro, pode ser de outra disciplina como… matemática, por exemplo! Adoro cálculos…

O teatro me possibilitou sonhar! Na minha primeira apresentação ninguém de minha família veio, mas tudo bem… não sofri por isso, meu sofrimento era por ver que minha mãe continuava apanhando e perceber que minha irmã, mesmo criança, não era boba e percebia o que acontecia e já demonstrava sofrimento. Não podia mais protegê-la! Somente o teatro me isentava daquela dor! Até o dia que o professor resolveu trabalhar uma peça a respeito da violência contra a mulher, alegando ser ela crescente e uma denúncia através da arte poderia ser um grande sinal de alerta. Que droga, tinha que mexer justamente com isso? O pior foi ele querer saber de nós, se tínhamos alguma história ou vivência relacionada ao tema… eu quis morrer, sair correndo e abandonar tudo. Até você, arte? Achava que estava fugindo mas… e agora?

Não adianta… por mais que aparente ser uma fuga, a arte é o encontro com tudo aquilo que mais amamos, odiamos e tememos. É o enfrentamento dos nossos demônios, mas também é o alívio para nossos males, sendo esta a chance de continuar vivendo os mais belos sonhos.

Texto de Luana Manso
Revisado por Zilma Barros

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