[Quarta Parede] Afinidades

E aí? O que acontece quando a tal da afinidade vai embora? Quando os assuntos se tornam burocráticos, quando não compartilhamos mais os mesmos ideais e sonhos? Quando nos palcos apenas atuamos, pois é o nosso trabalho, porém fora dele não somos nada. Mas, isso não é o certo? A entrega não deve ser somente no trabalho e fora dele ninguém é obrigado a ser amigo de ninguém? Na realidade não é bem assim… A arte muitas vezes é vista de forma industrial, onde cada um pensa em si, ou seja, no seu brilho, na sua construção, no seu entendimento, na sua ascensão. Há um trabalho em equipe, porém existe muito individualismo, competições e vaidades. A verdadeira arte precisa da união de um grupo, onde todos devem ter os mesmos objetivos. Por isso existem tantas companhias teatrais que trabalham com metodologias e estudos diversos.
Certa vez, dois atores que se odiavam por problemas passados foram selecionados para trabalhar num determinado espetáculo. Na cena tudo fluía muito bem, mas nas coxias mal se falavam. A comunicação era monossilábica. O ambiente no teatro era tenso. Durante um dos ensaios, o diretor passou um movimento corporal que expôs a dificuldade de um deles, e o outro, que tinha mais facilidade, não se prontificou em ajudá-lo devido à rixa pessoal… O diretor também não era aberto a dicas e opiniões do elenco, mas quando isso acontecia, geralmente escutava. Porém, não acatava nada do que lhe era dito, por mais coerente que fosse. Então para que perguntar?! Os outros atores, estes sim, com maior afinidade entre eles ficavam nos cantos ou se reuniam nos bares ou pizzarias para falarem mal dele…
Mas a peça era linda, bem feita, com excelente produção e com grandes atuações! Cada um superou as suas dificuldades por amor ao trabalho, pelo individualismo e não pela união coletiva. Por onde passava, o espetáculo fazia sucesso, mas no camarim era cada um em seu canto e somente na oração que antecedia o início do trabalho, certa união surgia… Um dia, porém, aqueles dois atores que não se gostavam, começaram a discutir sobre algo que não tinha nada a ver com a peça. Alguns colegas só assistiram e nada fizeram, outros até tentaram apartar a discussão, mas sem grandes preocupações. O diretor vendo aquela situação reclamou, e este foi o estopim para todos desabafarem as suas insatisfações. Sabe o que o líder da peça fez?
– Se não existe satisfação é melhor cancelar tudo, encerremos os trabalhos…
O diretor não lutou, não procurou unir o grupo, não demonstrou amor pelo trabalho de meses e meses de ensaios, não teve o menor senso de humanidade. Para piorar, os atores brigões levaram a situação ao palco. Numa cena, um deles colocou o pé na frente de propósito derrubando o outro no chão, que furioso quase partiu para cima dele, mas não podia, pois o seu personagem o amava… Porém, o público percebeu por uma fração de segundos sua expressão de ódio.
Artistas devem trabalhar com grupos que tenham os mesmos objetivos, afinidades e missões. Opiniões diversas sim, mas sem um bom bastidor, não existe uma boa arte!
Por Luana Manso
Revisado por Zilma Barros

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