[Cinema] 10 autores que não aprovaram a versão para o cinema de seus livros

Gostou de Mary Poppins? P.L. Travers, não. Gostou de A Fantástica Fábrica de Chocolate, a primeira versão, de 1971? Roald Dahl, não. Gostou de Laranja Mecânica? Anthony Burgess, não. Gostou de Um Estranho no Ninho? Ken Kesey, não. Gostou de O Iluminado? Stephen King, não (ah, vá). Gostou de A História sem Fim? Michael Ende, não. Gostou de Forrest Gump – o Contador de Histórias? Winston Groom, não. Gostou de Psicopata Americano? Bret Easton Ellis, não. Gostou de Entrevista Com o Vampiro? Anne Rice, não (pelo menos, não em princípio). Gostou de Watchmen – O Filme? Alan Moore, nadica. Saiba o porquê.

P.L. Travers/ Mary Poppins (1964)

E daí que você guarda as mais doces memórias a respeito de Mary Poppins? Para a autora, P.L. Travers, a adaptação da Disney foi um verdadeiro pesadelo – o que, inclusive, foi assunto para um filme a respeito da conturbada relação da escritora com os estúdios, em Walt nos Bastidores de Mary Poppins (título mais direto impossível). Sim, ela aprovou o roteiro, mas o que foi filmado não era exatamente o que estava previsto no texto. Travers odiou a alegria esfuziante da personagem na tela, já que o rigor da babá foi praticamente deixado de lado. Outra implicância tinha a ver com as sequências de animação, que ela simplesmente detestava. Resultado: Travers passou a maior parte da première chorando e jamais deixou Walt Disney tocar na história novamente.

Roald Dahl/ A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971) 

O escritor Roald Dahl classificou como “podre” (“crummy”) a versão cinematográfica de seu livro “A Fantástica Fábrica de Chocolate” para os cinemas em 1971. Quer saber o que ele achou da interpretação deGene Wilder como Willy Wonka? “Pretensiosa” e “saltitante” foram as palavras que ele usou na época (exatamente “pretentious” e “bouncy”). E o que dizer do diretor Mel Stuart? “Não tinha nenhum talento ou dom”. O curioso é que o próprio Dahl trabalhou no início da adaptação mas, incapaz de cumprir determinados prazos, foi substituído – e ficou descontente com a ênfase dada a Wonka no lugar de Charlie. Assim, ele prometeu que os produtores de Hollywood jamais colocariam a mão na sequência da história (sim, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é sucedido por um outro livro, o pouco conhecido “Charlie e o Grande Elevador de Vidro”) para não arruiná-la também, pelo menos, não enquanto ele estivesse vivo. Como ele morreu em 1990, foi por cima do seu cadáver que Tim Burton fez sua versão para o cinema em 2005.

Anthony Burgess/ Laranja Mecânica (1971) 

O caso de Anthony Burgess vai um pouco além de desaprovar a versão cinematográfica de Laranja Mecânica. O autor passou a rejeitar o próprio texto que deu origem ao filme. “O livro pelo qual eu sou mais conhecido – talvez o único que conheçam, aliás – é um romance que eu estou preparado a repudiar: escrito há um quarto de século, ficou conhecido como a matéria prima para um filme que parece glorificar o sexo e a violência. O filme induziu os leitores à má interpretação da história, e essa confusão vai me perseguir até a morte. Eu não deveria ter escrito o livro por causa do perigo da interpretação errada”. Ou seja, como o filme tornou o livro popular, no fim, Burgess culpa o filme (do Stanley Kubrick???)

Ken Kesey/ Um Estranho no Ninho (1975) 

Um Estranho no Ninho conquistou cinco Oscars: filme, diretor (Milos Forman), ator (Jack Nicholson), atriz (Louise Fletcher) e roteiro (Lawrence Hauben e Bo Goldman). Só não conquistou o autor do livro no qual o filme foi baseado. Ken Kesey estava inicialmente escalado para trabalhar na adaptação, mas abandonou o ninho depois de duas semanas e não concordava com a escalação (veja só) de Jack Nicholson (preferia Gene Hackman para o papel). Ele ficou decepcionado também com a mudança do ponto de vista do personagem central (no livro, Bromden é quem narra a história, mas o protagonismo de um índio surdo mudo não era necessariamente o que os estúdios imaginavam como um hit de bilheterias). Assim, Kesey alegou nunca ter visto o filme. Mas sua esposa confessou, depois da morte do marido, que ele se orgulhava da história ter sido filmada – o que não quer dizer que aprovava.

Stephen King/ O Iluminado (1980) 

“Eu já admirava o [Stanley] Kubrick (de novo não!!!) há um tempo e tinha grandes expectativas em relação ao projeto, mas o resultado final me desapontou profundamente. Kubrick não conseguiu alcançar o tom de maldade do hotel. Então, ele optou por procurar a maldade nos personagens e transformou o filme numa tragédia doméstica com tons apenas vagamente sobrenaturais”. “Essa foi a falha básica: como ele não acreditava, ele não conseguiu tornar o filme crível para a audiência”. “Shelley Duvall como Wendy é uma das opções mais misóginas da história do cinema. Ela está ali basicamente para gritar e ser estúpida, e essa não é a mulher sobre a qual eu escrevi”. Palavras de Stephen King que, em diversas ocasiões, já difamou a versão cinematográfica de O Iluminado. Ele também não aprovou a atuação de Jack Nicholson (de novo não!!!). O autor queria que o protagonista não parecesse um maluco até chegar ao hotel mas, para ele, Nicholson incorpora o doido desde o início do filme.

Michael Ende/ A História sem Fim (1984) 

Com saudades de A História sem Fim, pequeno espectador do SBT? Pois esse é um sentimento não compartilhado pelo autor da história original, Michael Ende. Ende, aliás, nem sequer se considera o escritor da aventura que foi parar nos cinemas (e na telinha do canal do Silvio Santos, claro). Ele achou que a adaptação cinematográfica se distanciava tanto do seu livro, que tentou barrar a produção do filme ou pelo menos que mudassem o nome do longa. Quando não foi atendido, abriu um processo contra o estúdio, mas perdeu a causa. De qualquer maneira, ele já havia pedido a retirada do seu nome dos créditos de abertura (Ende só é creditado discretamente no final)

Winston Groom / Forrest Gump – o Contador de Histórias (1994) 

“Jamais deixe alguém fazer um filme sobre a história da sua vida. Quer eles entendam ou não, não importa”. Assim, Winston Groom começa seu livro “Gump and Co” (1995), continuação de “Forrest Gump – O Contador de Histórias” (1986), obra que deu origem ao filme homônimo protagonizado por Tom Hanks, lançado em 1994. O autor ficou irritado com a forma como Hollywood tratou a história, omitindo certas tramas e suavizando as cenas de sexo e a linguagem. O desabafo faz parte de uma treta que chegou à instância judicial. Groom processou os produtores do filme para garantir a quantia equivalente a 3% do lucro líquido com a receita do filme – o que estava previsto em seu contrato, mas os executivos alegavam que, descontados os custos de produção e com publicidade, o filme não havia dado lucro. Em retaliação, Groom não foi mencionado em nenhum dos seis discursos de agradecimento pelos vencedores do Oscar daquele ano. Nem mesmo Hanks, que recebeu um cachê de US$ 20 milhões.

Bret Easton Ellis/ Psicopata Americano (2000) 

Apesar de ter trabalhado na adaptação de “The Informers” (Informers – Geração Perdida – “O filme não funciona por uma série de razões, mas eu não acho que nenhum desses motivos seja culpa minha”, declarou certa vez), Bret Easton Ellis não morre de amores por nenhum longa-metragem baseado em seus livros (bom, talvez Regras da Atração). Sobre Psicopata Americano, especificamente, ele acha que o filme nunca deveria ter sido feito. Simples assim. E por quê? Com a palavra, o autor: “eu acho que o problema com ‘Psicopata Americano’ é que a obra foi concebida como um romance, um trabalho literário, centrado em um narrador pouco confiável e o filme é um tipo de mídia que exige respostas. Por mais ambíguo que você seja [na realização de um filme], não importa, você sempre estará buscando respostas, uma resposta visual. E eu não acho que ‘Psicopata Americano’ é mais interessante, particularmente, se você sabe que ele de fato agiu ou se aquilo não aconteceu apenas na cabeça dele. Acho que a resposta a essa pergunta torna o livro infinitamente menos interessante”. É um discurso coerente.

Anne Rice/ Entrevista Com o Vampiro (1994)/ A Rainha dos Condenados (2002) 

O problema dela era o Tom Cruise. Elenco escalado, Anne Rice encasquetou com a escolha do ator para viver o papel do vampirão Lestat. “A escalação é tão bizarra, que é quase impossível imaginar como vai funcionar”, ela disse na época. Pagou com a própria saliva: depois de ver o filme (ao contrário de P.L. Travers com a sua Mary Poppins), a autora disse ter “amado” a atuação do astro (pelo menos, teve humildade de voltar atrás). A Rainha dos Condenados, porém, não voltou do inferno a que a escritora da obra original o condenou. Em seu perfil no Facebook, em 2012, ela fez um apelo aos fãs: “vamos esquecer o filme. É o melhor a ser feito: simplesmente esquecê-lo. Eu não o vejo desde que foi lançado (2002). Eu não o considero como baseado no meu trabalho. E eu tento apagá-lo da minha mente”. Então, tá.

Alan Moore/ Watchmen – O Filme (2009) 

Ninguém leva Alan Moore a sério quando ele diz que ele não aprovou a adaptação de alguma de suas histórias em quadrinhos para o cinema. Pelo simples fato de que ele não gosta de nenhuma mesmo. Mas, no caso de Watchmen – O Filme, ele foi um pouco mais radical: pediu para retirarem seu nome de qualquer material relacionado ao filme e também para direcionar toda a quantia relativa aos direitos autorais para a conta de Dave Gibbons, colaborador de Moore, que participou ativamente da realização do longa. O motivo é mais ou menos o alegado por Bret Easton Ellis (Psicopata Americano): a falta de imaginação da obra visual. “O cinema moderno dá a comida na boca, o que significa que dilui a imaginação cultural coletiva. É como se nós fôssemos pássaros recém nascidos olhando pra cima, esperando de boca aberta que Hollywood nos alimente com minhocas regurgitadas”, ele cravou. “O filme Watchmen soa como minhocas regurgitadas [ele não viu o filme na época do lançamento]. Eu estou cansado de minhocas. Não podemos obter algo diferente? De repente, algo ‘para viagem’? Até as minhocas chinesas já seriam uma mudança”. Wow!

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