[Repertório] Os 50 textos mais importantes do teatro nacional – Parte 1

Por Juliano Bonfim

– Passeando por sites e mais sites sobre teatro eu sempre acabava caindo em listas com peças essências para atores; Nomes como Shakespeare, Samuel Beckett, Arthur Miller, Tennessee Williams, Harold Pinter, entre outros, pipocavam na tela, inclusive posso postar essa lista para todos, mas senti falta do que é nosso nessas listas.

Falar que Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Chico Buarque são grandes nomes do teatro brasileiro é chover no molhado, mas você já ouviu falar de nomes como o de Oduvaldo Vianna Filho ou de Antonio Bivar? Conhece as grandes mulheres da dramaturgia nacional? Já ouviu falar das peças atuais que já se tornaram ícones como “Luís Antônio – Gabriela” e “Pessoas Perfeitas”? Sabia que o Golpe Militar de 64 censurou dezenas de peças que acabaram se tornando símbolos de luta e resistência no Brasil?

Confira nessa lista a primeira parte das 50 peças mais importantes do teatro nacional, um trabalho de pesquisa de dias que não poderia ser feito sem a  ajuda de vocês.

Obrigado pelas dicas: Vinicius Cassiolato, Alex Lee, Eduardo Sabion, igor Carvalho, Christian Malheiros, Kelly Maciel, Naty Garcia, Patrick Lyan, Débora Gomes, Matheus Pereira, Anderson Tardelli, Yuri Ribeiro, Jonata Santos
Lucas Pacheco, Patrícia Holanda, Carina Ottoni, Giulia Lima, Ton Castro, Jhon Booz e Andressa Dias Maciel


Resultado de imagem para gota d'água livroGota D’Água – Chico Buarque e Paulo Pontes – 1975
Dividida em dois atos, A Gota d’Água espelha uma tragédia urbana, banal nos grandes centros, nas favelas do Rio de Janeiro, onde está ambientada; os sets retratam um botequim, local de encontro dos homens e, ao lado, o set das lavadeiras, onde as personagens femininas conversam. No set da oficina, está o velho Egeu, e onde passam alguns amigos.

Retrata as dificuldades vividas por moradores de um conjunto habitacional, a Vila do Meio-Dia, que na verdade são o pano-de-fundo para o drama vivido por Joana e Jasão que, tal como na peça original, larga a mulher para casar-se com Alma, filha do rico Creonte. Sem suportar o abandono, e para vingar-se, Joana mata os dois filhos e suicida-se.

A ideia foi originalmente derivada de um trabalho de Oduvaldo Viana Filho, que adaptara a peça grega clássica de Eurípedes sobre o mito de Medeia, para a televisão, e à memória do qual foi dedicada.

No teatro permanece a censura. Para liberar a peça, Paulo Pontes teve que negociar alguns cortes. Ainda assim, foi sucesso de público e de crítica. A peça foi premiada com o Prêmio Molière que os autores recusaram em sinal de protesto contra a proibição, no mesmo ano, de obras de outros autores, como “O abajur lilás”, de Plínio Marcos e “Rasga coração”, de Oduvaldo Vianna filho.


Resultado de imagem para dois perdidos numa noite suja livroDois Perdidos numa noite suja – Plínio Marcos – 1966
O texto é inspirado no conto O terror de Roma do escritor italiano Alberto Moravia. Dois personagens —- Paco e Tonho —- dividem um quarto numa hospedaria barata e durante o dia trabalham de carregadores no mercado. Todas as cenas se passam no quarto durante as noites. As personagens discutem sobre suas vidas, trabalho e perspectivas, mantendo uma relação conflituosa. O tema da marginalidade permeia todo o texto. Tonho se lamenta constantemente por não possuir um par de sapatos decente, fato ao qual atribui sua condição de pobreza. Ele inveja Paco que possui um bom par de sapatos e este, por sua vez, vive a provocar Tonho chamando-o de homossexual ao mesmo tempo que o considera como um parceiro. Paco, que já havia trabalhado como flautista, certa noite teve sua flauta roubada quando estava muito embriagado, entorpecido. No final, na tentativa de melhorar suas vidas, ambos são compelidos à realização de um ato que modificará radicalmente suas vidas.

A peça foi apresentada pela primeira vez no mesmo ano, 1966, no Bar Ponto de Encontro, para uma pequena plateia. Foi adaptada para o cinema duas vezes, sendo a primeira no ano de 1970 sob a direção de Braz Chediak e a mais recente no ano de 2002 sob a direção de José Joffily. É uma das peças mais famosas de Plínio, tendo sido montada inúmeras vezes tanto no Brasil como em outros países.


Resultado de imagem para Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhãAbre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã – Antônio Bivar – 1968
A peça narra o cotidiano de duas presidiárias que se tornam grandes amigas e companheiras, por já estarem juntas a algum tempo, e por terem a consciência também de que permanecerão na prisão pelo resto de suas vidas. Ambas passavam o dia trabalhando na confecção de flores de cetim, e durante a noite se revezavam para namorar o carcereiro. Tempos depois, entra a nova carcereira, Azeredo, que passa os dias a atormentar suas vidas.


LAMPIAO A BEATA MARIA DO EGITOA Beata Maria do Egito – Rachel de Queiroz – 1958
História inspirada na tradição das beatas de Juazeiro do Norte, Ceará, no século 19, e escrita como uma peça de teatro. Na trama, que se passa em 1914, a beata Maria do Egito recruta populares para se juntarem à rebelião que Padre Cícero lidera em Juazeiro. Seu caráter revolucionário faz com que o latifundiário coronel Chico Lopes obrigue o tenente João a prendê-la, o que traz uma grande tensão ao enredo, causada pela iminência de um ataque dos romeiros. A situação é agravada pela atração que o tenente sente pela moça. Ao perceber o interesse da beata, que tenta conseguir a liberdade, o tenente decide mantê-la presa, apesar da ameaça do ataque popular à delegacia. Porém, o cabo Lucas simpatiza com a causa da Beata e entra em conflito com o tenente, enquanto a delegacia está quase sendo invadida. Na situação, o tenente toma a beata como refém e o cabo tenta desarmá-lo, chegando, assim, na decisão entre dois amigos em uma luta de morte. Percebe-se na obra, a perfeição da linguagem, a clareza e realismo dos diálogos, os cenários nordestinos bem desenhados, a pesquisa histórica e a força indiscutível das personagens femininas.


Resultado de imagem para album de familia nelson rodrigues peçaÁlbum de Família – Nelson Rodrigues – 1945
Retrata uma família que, sob a ótica do locutor (que espelha a da opinião pública,) é perfeitamente normal e feliz, mas que cuja intimidade no lar é caracterizada por uma rede de paixões incestuosas e perversões diversas. Jonas, o patriarca, tem o hábito de trazer garotas de 12 a 16 anos para casa para desvirginá-las e, com isso, extravasar o desejo sexual que sente pela filha caçula, Glória. Conta, para isso, com a ajuda da cunhada Rute, que, apaixonada, faz qualquer coisa por ele. Glória, por outro lado, tem uma adoração pelo pai que, aparentemente, também está além de ser meramente filial.

O primogênito, Guilherme, também se sente atraído pela irmã Glória, tendo chegado ao ponto de se castrar para evitar consumar seu desejo. Já o segundo filho, Edmundo, é perdidamente apaixonado pela mãe, D. Senhorinha, paixão esta que impede que ele consiga consumar seu casamento com Heloísa. D. Senhorinha, por sua vez, nutre um amor proibido pelo terceiro filho, Nonô, que, tendo enlouquecido subitamente há alguns anos, devido a um contato incestuoso com sua mãe, passou a correr nu pelos campos da fazenda onde se passa a história, urrando e gritando constantemente.

A história principal é interrompida regularmente para que sejam mostradas ocasiões, em diferentes épocas, nas quais membros da família são fotografados para um álbum. Tais cenas são acompanhadas pela voz do locutor, que sempre descreve a virtude e a felicidade daquelas pessoas, contradizendo o que é mostrado ao público ao longo de toda a peça.
Foi proibida no ano seguinte à sua publicação, e só liberada para encenação em 1965. Foi inicialmente protagonizada por Luiz Linhares e Vanda Lacerda, em 1967.


Resultado de imagem para a moratóriaA Moratória – Jorge Andrade – 1955
O texto enfoca a crise na produção cafeeira nacional gerada pela quebra da Bolsa Valores de Nova York e acompanha a derrocada de uma aristocrática família reduzida subitamente à pobreza. Centralizando o conflito está o velho Quim, um coronel à antiga, que vê os filhos e a mulher minguarem, saudosos dos velhos tempos e sem perspectivas de futuro. Ambientada em dois momentos – os anos de 1929 e 1932, antes e depois do desastre econômico, a estrutura dramatúrgica intercala cenas na casa da fazenda e cenas na pequena casa da cidade, onde a família passa a viver dos modestos ganhos dos filhos, especialmente de Lucília, que se torna costureira. Esse recurso permite ao autor apresentar o verso e o reverso das situações, justificando comportamentos e projetando expectativas. A alternância entre os dois momentos, mostrados simultaneamente, constitui-se no trunfo maior da arquitetura cênica de A Moratória.


Pessoa Perfeitas – Ivam Cabral / Rodolfo García Vázquez  – 2014
Longe da simplificação rasteira, as personagens de “Pessoas Perfeitas” sussurram, imperativas, à microrrevolução de sua interioridade afetiva para a observação da nossa vida. Parecem significar cada vez mais a nós mesmos, na medida em que são enganadas entre si, enredadas na dramaturgia da própria performance. Trata-se de pessoas comuns e extraordinárias: não é fácil escrever figuras tão perto da realidade de nossas vidas sem cair num dramalhão de insignificância cênica. “Pessoas Perfeitas” já é um marco na nossa dramaturgia.


Resultado de imagem para Auto da Compadecida, Ariano SuassunaAuto da Compadecida – Ariano Suassuna – 1955
O “Auto da Compadecida” consegue o equilíbrio perfeito entre a tradição popular e a elaboração literária ao recriar para o teatro episódios registrados na tradição popular do cordel. É uma peça teatral em forma de Auto em 3 atos, escrita em 1955 pelo autor paraibano Ariano Suassuna. Sendo um drama do Nordeste brasileiro, mescla elementos como a tradição da literatura de cordel, a comédia, traços do barroco católico brasileiro e, ainda, cultura popular e tradições religiosas. Apresenta na escrita traços de linguagem oral [demonstrando, na fala do personagem, sua classe social] e apresenta também regionalismos relativos ao Nordeste. Esta peça projetou Suassuna em todo o país e foi considerada, em 1962, por Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1969 com o filme A Compadecida. Na segunda vez em 1987 com o filme Os Trapalhões no Auto da Compadecida. Foi apresentada em 1999 na Rede Globo de televisão como minissérie, O Auto da Compadecida (em que há um acréscimo do artigo “o” antes do nome original). Na terceira e mais conhecida adaptação feita para o cinema em 2000, é chamada também de O Auto da Compadecida, nela aparecem alguns personagens como o Cabo Setenta, Rosinha e Vicentão. Eles não fazem parte da peça original, e sim de A Inconveniência de Ter Coragem, também de Ariano Suassuna. Sua primeira encenação foi em 1956, em Recife, Pernambuco. Posteriormente houve nova encenação em 1974, com direção de João Cândido.


Resultado de imagem para Rasga coração", de Oduvaldo Vianna filhoRasga Coração – Oduvaldo Vianna Filho – 1974
Rasga coração utiliza da técnica dramatúrgica do flashback para traçar um painel histórico que percorre aproximadamente 40 anos da história política do Brasil. Estabelecendo dois momentos cruciais para formação mesma da consciência política do homem brasileiro (1930 a 1945 e 1972), aborda o primeiro governo Vargas, desde a Revolução de 30, passando pelo Estado Novo até a redemocratização em 45; a partir daí, opera um salto temporal e nos apresenta os primeiros anos da década dos 70, com a ditadura militar atingindo o seu mais alto grau de repressão na luta contra a “subversão” e o “comunismo internacional”.
Foi o último texto teatral do ator, diretor e dramaturgo brasileiro Vianinha, integrante do Teatro de Arena de São Paulo. O dramaturgo terminou de escrever Rasga Coração pouco antes de morrer vitimado por um câncer pulmonar, aos 38 anos, em 1974. Depois de anos sob censura durante o regime militar de 1964, Rasga Coração foi finalmente liberada e estreou no Teatro Vila-Lobos no Rio de Janeiro na década de 1980, encenada pelo diretor José Renato Pécora, também integrante e fundador do Teatro de Arena de São Paulo, com elenco formado principalmente por atores da Geração dos anos 1970 da Escola de Teatro da UNIRIO como Vera Holtz, entre outros colegas e protagonizada por Raul Cortez.


Resultado de imagem para a partilha peçaA Partilha – Miguel Falabella – 1991
Após muito tempo afastadas, quatro irmãs se reencontram durante o enterro da mãe, para fazer um levantamento dos bens da família e rediscutir suas próprias vidas. As divergências são inevitáveis, pois elas seguiram caminhos muito diferentes: Selma, a irmã mais conservadora, está casada com um militar e leva uma vida disciplinada na Tijuca; Regina, é liberada, esotérica, não costuma se reprimir e tem uma visão “alto astral” da vida; Maria Lúcia (Marilu) abandonou um casamento convencional e o filho para viver um grande amor em Paris; e Laura, a caçula, revela-se uma intelectual sisuda e surpreende as irmãs com suas opções. Durante o encontro, elas discutem e brigam mas, ao mesmo tempo, relembram os bons tempos passados e descobrem muitas novidades sobre elas mesmas.Vivem intensamente suas afinidades, seus problemas e suas diferenças.

A peça ficou em cartaz por 6 (seis) anos. Chegando a cerca de 12 países.
Considerando-o “o primeiro texto de maior fôlego de Miguel Falabella”, o crítico Macksen Luiz avalia que ele “conta com simplicidade uma história que mexe com a memória afetiva do espectador, utilizando-se do riso como uma arma infalível para desmascarar o triste mas belo sentimento humano de perseguir a felicidade”. A peça foi escrita por Miguel, depois de uma ideia que a atriz Natália do Vale deu a ele, quando os dois atuavam como irmãos na novela O Outro, onde também atuava Arlete Salles, outra atriz da montagem original. A peça fez tanto sucesso que Miguel Falabella escreveu em 2000, a continuação A vida passa, e em 2002 o filme A Partilha.


Resultado de imagem para O Homem e o Cavalo (1934)O Homem e o Cavalo – Oswald de Andrade – 1934
Esta peça é a mais radical ruptura de Oswald com o teatro naturalista. Trata-se de uma viagem panorâmica pela história da humanidade, mas sem nenhuma preocupação com a lógica linear, é formada por nove quadros que procuram, em conjunto, fazer um balanço do capitalismo e, nas laterais, condenar o fascismo e discutir o socialismo.


Resultado de imagem para Novas Diretrizes em Tempos de PazNovas Diretrizes em Tempos de Paz – Bosco Brasil – 2001
O texto, cuja ação se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas, já no final da Segunda Guerra Mundial, narra a história de um judeu polonês, refugiado de guerra. Tentando conseguir seu visto de entrada no Brasil, acaba interrogado por um agente alfandegário e ex-torturador da polícia política de Vargas na sala de imigração do porto do Rio de Janeiro em abril de 1945, gerando um grande embate ideológico que discute a condição humana e os horrores do preconceito político e racial, onde cada oponente procura buscar e negar suas diversas identidades. Esta peça foi adaptada para o cinema em 2009 — sob a direção de Daniel Filho — e lançada no Brasil com o título Tempos de Paz.


Resultado de imagem para pluft o fantasminha livroPluft, o Fantasminha – Maria Clara Machado – 1955
Conta a história do rapto de uma menina (Maribel) pelo malvado pirata Perna-de-Pau. Escondida no sótão de uma velha casa, ela conhece uma família de fantasmas e faz amizade com Pluft, um fantasminha que tem medo de gente.PA peça foi encenada pela primeira vez pelo Tablado no Rio de Janeiro, em setembro de 1955, com direção da própria autora, e recebeu o prêmio APCA. Foi transformada em filme em 1961 por Romain Lesage. Em 1975 foi uma minissérie de TV produzida pela Rede Globo em parceria com a TV Educativa.


Resultado de imagem para Deus Lhe Pague joracyDeus Lhe Pague – Joracy Camargo – 1932
Primeira peça teatral brasileira encenada no exterior, Deus lhe pague é história de um mendigo que resolve vingar-se da sociedade.
Richardson pede esmolas na proximidade de uma igreja, mas ele vai mal. Ninguém parece se importar. Outro mendigo, Mario está instalada nas proximidades e tem muito êxito em receber esmolas das pessoas. E Richardson aparece pedindo conselho, e Mario, sem dúvida, dar-lhes, mas o último, o mais importante na vida é para compartilhar, e não ser egoísta. É nestas circunstâncias que uma bela jovem, bonita, com um comportamento refinado aparece. A Richardson apenas lhe dá algumas moedas, no entanto, a Mario dá-lhe um bilhete.


Resultado de imagem para nossa vida não vale um chevroletNossa Vida não Vale um Chevrolet – Mário Bortolotto – 2008
Peça de teatro publicada em 2008 (a peça foi encenada pela primeira vez em 2000), que conta a história de quatro irmãos cuja profissão é, como eles dizem, “puxar carro”, que na gíria local significa roubar e revender. Aliás, essa é a profissão de três deles porque a irmã, Magali, trabalha como prostituta de luxo. Em meio a isso há também o personagem de Guto, um rico entediado que contrata homens para brigar na rua e a solitária Silvia, mulher que mora sozinha, aficionada por todos os homens que se envolve e que acaba por sair com os irmãos puxadores.
Formado por um grupo de degenerados, todos oscilam entre fazer o mesmo e buscar a diferença. Sobrevivem com pouco, ostentam a violência com orgulho, bebem, usam drogas, roubam, mas não conseguem sequer se divertir com tudo isso. Silvia representa a repetição patética de suas vidas: seus encontros são repetidos, inclusive pelas cenas e falas idênticas distribuídas no decorrer da peça. Além deles há também Love, homem que dança de sunga em um clube das mulheres para arrecadar uma grana, mas que preferiria estar em qualquer outro lugar além de onde está.


Resultado de imagem para vestido de noiva nelsonVestido de Noiva – Nelson Rodrigues – 1943
A peça é um marco na história da dramaturgia nacional. A primeira montagem, em dezembro de 1943, deu início ao processo de modernização do teatro brasileiro.
Essa era a segunda peça escrita por Nelson. A montagem foi realizada sob a direção do polonês Zbigniew Marian Ziembinski, que chegara ao Brasil cerca de dois anos antes. Experiente encenador, Ziembinski deu forma ao texto de Nelson. Seu rigor na encenação, com a exigência de ensaios constantes, levou a concepção brasileira de teatro a novos níveis.
A grande tensão que permeia a peça não se mostra apenas no antagonismo entre Alaíde e Lúcia, mas nas relações conflitantes entre todos os personagens. Nas cenas, a angústia da culpa supera sempre os tons de ternura amorosa com que geralmente são apresentados os laços familiares. As relações de desejo são também relações de ódio.


Resultado de imagem para Luís Antônio GabrielaLuís Antônio Gabriela – Nelson Baskerville / Cia. Mungunzá- 2012
Após uma infância turbulenta sob as mãos de um pai severo, Luís Antônio deixa sua família e vai morar na Espanha à procura da liberdade para ser quem realmente é – Gabriela. Anos se passam sem que Gabriela dê qualquer sinal de vida, até que a notícia de sua morte chega ao Brasil. O espetáculo estreou com a Companhia Mungunzá de Teatro que leva ao palco a forte história que se passa sob o reflexo da violência familiar em decorrência da ditadura militar a partir de vários pontos de vista

A peça segue em cartaz em São Paulo no mês de Novembro de 2016, mais informações AQUI


Calabar: O Elogio da Traição – Chico Buarque e Resultado de imagem para Calabar peçaRuy Guerra – 1973
A peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa, a quando a Insurreição Pernambucana. Vivia o Brasil sob o regime ditatorial militar de Portugal, fruto da Guerra da Restauração, e era comum o uso das metáforas nas produções artísticas a fim de, por um lado, burlar a censura rigorosa do sistema (sendo popular a figura de Armando Falcão, Ministro da Justiça, encarregado dessa tarefa canhestra) e, por outro, denunciar a situação contemporânea. Chico Buarque foi um mestre no uso dessas figurações: e o episódio histórico do traidor Calabar, comum em todos os livros didáticos como um dos maiores exemplos de perfídia – serviu de mote para justamente questionar a chamada versão oficial.

Na peça, Domingos Calabar passa de comerciante que visava o lucro e que, por isto, traíra os portugueses e colonos brasileiros – para um quase herói, que tinha por objetivo não o ganho pessoal, mas o melhor para o povo brasileiro (na verdade um conceito ainda inexistente, no século XVII). A intenção dos autores, porém, não era denunciar um erro histórico, nem tinha a pretensão de promover uma revisão: o alvo era, justamente, o próprio regime militar, sua censura, os veículos de comunicação que, engessados pelas versões dos fatos sempre acordes com o sistema, passavam ao povo imagens que precisavam ser questionadas em sua veracidade.
A censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20 de outubro de 1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar do título e proibiu que a proibição fosse divulgada. O prejuízo para os autores e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme. Seis anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura.


Resultado de imagem para LEONARDO MOREIRA “O JARDIM” anoO Jardim – Leonardo Moreira – 2011
“O jardim” é o terceiro espetáculo criado pela Companhia Hiato. Em cena, histórias de tempos e espaços diferentes se sobrepõem, criam fricções entre si , se completam ou se contradizem. Essas diferentes perspectivas criam um jogo fractal de reconhecimento e estranhamento das situações apresentadas e reapresentadas de forma vertiginosa. Propõe-se um jogo com a própria memória do público que, ao rever uma cena já vista – mas desta vez cheia de lacunas – é levado a recriar em sua memória os diálogos, é conduzido a reinventar a cena sob seu olhar e lembrança intransferíveis.
Outros elementos fazem da memória também uma escolha estética para o trabalho, como a a visão parcial do público. Buscando equivalência a uma memória, as três histórias são contadas sobre diferentes perspectivas, por vezes contraditórias. Não se trata de mostrar vários pontos de vista de uma mesma situação mas sim de ressaltar a subjetividade implícita em cada encontro, a relatividade do que constitui a nossa história.
Em “O jardim”, o público é distribuído em três espaços diferentes e sua visão é mediada por essa distribuição, já que o cenário de caixas é construído e reconstruído em cena, de modo a criar mundos imaginários, a transformar momentos já vistos em lacunas e a fragmentar a fruição da fábula. Tudo isso para expressar, também em sua estética e não só na dramaturgia, o ato criativo que é rememorar.


Resultado de imagem para O Rei da Vela, Oswald de AndradeO Rei da Vela – Oswald de Andrade – 1933
Só foi publicada pela primeira vez em 1937, única edição em vida do autor. Contudo, só foi encenada pela primeira vez trinta anos mais tarde, porque o texto havia sido considerado inviável para apresentação até então. É considerada a mais célebre do autor. Escrita no embalo da crise financeira de 1929, teria sido influenciada pela própria aflição financeira do escritor. Suas personagens, membros da elite burguesa e rural, são retratadas como ridículas e decadentes, envolvidas em falcatruas, exploração, falta de moralidade e sexualidade conturbada.


Resultado de imagem para eles nao usam black tieEles não usam Black-tie – Gianfrancesco Guarnieri – 1958 
A peça tem como tema central a greve e a vida operária, com preocupações e reflexões universais do ser humano. Em 1981 foi feita uma versão homônima da peça para o cinema, dirigida por Leon Hirszman e protagonizada pelo mesmo Guarnieri. “Black Tie” trouxe os camponeses e gente simples que a cena teatral e que já haviam sido anteriormente objeto de representação no teatro brasileiro, como em textos de Arthur Azevedo e Nelson Rodrigues.

A direção da peça foi realizada por José Renato com músicas de Adoniran Barbosa, encenada no Teatro de Arena, um pequeno teatro de noventa lugares em frente a praça da Consolação em São Paulo, adaptado de uma garagem, hoje Teatro Eugênio Kusnet. A estreia da peça foi a 22 de fevereiro de 1958. Foi a escolhida no Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena e tirou-o da falência iminente, dado o sucesso de bilheteria. Ficou mais de um ano em cartaz em São Paulo, fato inédito no teatro brasileiro.


525 Linhas – Marcelo Rubens Paiva – 1989
Marcelo Paiva, um dos mais talentosos escritores brasileiros da sua geração, depois do sucesso de “Feliz Ano Velho” e “Blecaute”, lança-se numa nova linguagem, numa nova pesquisa: o teatro. “525 linhas” revela o Marcelo dramaturgo, através de um texto “pós-moderno” onde o mundo da televisão e da publicidade se mistura a conflitos e desencontros afetivos. Quem já conhece o romancista não pode deixar de descobrir um teatrólogo ágil, maduro e contemporâneo. Para quem ainda não conhece Marcelo Paiva, saiba por que e como este jovem escritor permanece afinado com as formas modernas da criação literária.


Resultado de imagem para navalha na carne textoA Navalha na Carne – Plínio Marcos – 1967
A peça, de Plínio Marcos, se passa em um quarto de bordel, onde a prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o homossexual Veludo, empregado do estabelecimento, encarnam a existência subumana e marginalizada. A montagem, proibida pela Censura, na sequência ganha repercussão no Rio de Janeiro, dirigida por Fauzi Arap e trazendo Tônia Carrero no papel feminino. Retrato naturalista do submundo brasileiro em que as gírias, a violência das relações humanas, a situação opressora e a luta de cada personagem constroem um quadro cuja dramaticidade sobrevive ao tempo, Navalha na Carne é a obra mais encenada do dramaturgo, ao lado de Dois Perdidos Numa Noite Suja. A peça pode ser vista como metáfora dos mecanismos de poder entre as classes sociais brasileiras, uma vez que as personagens, embora pertençam ao mesmo estrato social, se dedicam a uma contínua disputa pelo domínio sobre o outro. Nessa disputa, as personagens vão da força física à chantagem pela autopiedade, da sedução à humilhação, da aliança provisória entre dois na tentativa de isolar o terceiro, mas a possibilidade de juntar suas forças para lutar contra a situação que os oprime nunca é cogitada.


Agreste – Newton Moreno – 2001
Baseada em reportagem verídica, Agreste é um drama de amor e pobreza no interior nordestino, narrado por dois contadores de história. É um vigoroso manifesto poético, uma fábula que trata ao mesmo tempo sobre intolerância, preconceito e amor incondicional.“Desejar ser”, “ilusão”, “amar a gente” são alguns dos temas abordados na peça. Aborda também temas intensos que por séculos fazem parte do cotidiano como: amor incondicional, homoerotismo, preconceito social e ignorância. Podemos dizer que, sobretudo, o enredo da peça gira em torno da complexidade das relações humanas. O texto de Newton Moreno tem uma estrutura aberta, mais de provocação do que naturalista. O texto da peça tem três grandes blocos. O primeiro é o tempo mítico. “Ele andava muito para encontrá-la.” Tudo é indeterminado. No segundo bloco, “naquele dia, naquela manhã…”, é o tempo focado. O terceiro é a condição psicofísica dos personagens. “O sol”, “muito tempo caminhando”.


cais-ou-da-indiferen-a-das-embarca-esCais ou da Indiferença das Embarcações – Kiko Marques – 2012
No fim de outubro de 2012, a montagem da Velha Companhia estreou de mansinho no Instituto Cultural Capobianco. Fez-se, então, um boca a boca em torno do drama épico escrito e dirigido por Kiko Marques. Algo compreensível não apenas por sua história arrebatadora, que enfoca três gerações de uma família, mas também pela forma como a encenação simples reproduz a trama ambientada na Ilha Grande, no litoral fluminense. No fim da década de 20, a garotinha Magnólia conhece um rapaz crescido , e os dois se apaixonam. A Revolução de 30 e o Estado Novo afastam a possibilidade de um reencontro, e ela se casa com outro. Quem traz essa história à tona — e suas consequências trágicas — é um narrador que representa um barco. Efeitos especiais ou recursos sofisticados são dispensados. Em cena estão dois músicos e doze atores.


SEGUNDA PARTE

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