[Repertório] Preciso fumar em cena, o que fazer?

Por Juliano Bonfim

– Se eu não me engano foi no ano de 2010, estava assistindo a peça “12 Homens e Uma Sentença”, no Tucarena em São Paulo, quando um dos atores acendeu um cigarro. Logo em seguida alguém da plateia gritou atrás de mim: “Não pode fumar em local fechado, é lei!”. O ator ignorou, fumou o seu cigarro, mas percebi que foi o único da peça, ele passou o restante do espetáculo com um cigarro apagado nas mãos, mas não acendeu.

Resultado de imagem para smoking cigarette on theatre actressMesmo com a entrada em vigor da lei antifumo (Lei 13.541/09), desde 2009, no estado de São Paulo, o uso de cigarros em peças teatrais é liberado. De acordo com nota divulgada pela Secretaria, o fumo em cena, quando necessário, é irrelevante e não prejudica as outras pessoas. O fumo é proibido nas demais dependências de teatros e casas de espetáculo, assim como em outros ambientes fechados, como bares e shoppings.

Porém hoje em dia, fumar ou não fumar no palco é uma questão espinhosa. Com público e atores cada vez mais avessos ao tabaco, além de atos de ar limpo em alguns estados que proíbem fumar em lugares público, o que fazer caso eu precise fumar em cena?

Tente imaginar assistir uma montagem de Tennessee Williams ou Nelson Rodrigues sem ver um cigarro em cena, ou Noel Coward, Harold Pinter, Plínio Marcos, Mike Leigh, ou uma peça como Quem tem Medo de Virginia Woolf?
Existem milhões de motivos para o cigarro incomodar plateia e atores, mas caso a cena esteja pedindo um cigarro, o que fazer?

Cigarros de ervasResultado de imagem para cigarro falso para teatro
Calma, não se empolguem amiguinhos, aquela ervinha você deixa pra depois do ensaio…
Estou falando de um dos produtos mais consumidos entre atores, o “ecstasy herbal”, seu ingrediente principal é o alface e sabores. Mas, como o diretor artístico Michael Halberstam do teatro Glencoe, Illinois, observa, os herbals cheiram como maconha e se a platéia não sabe que os cigarros são à base de plantas, a reação pode ser negativa. Esta foi a escolha feita pela atriz Cláudia Raia para viver Sally no musical Cabaret, de 2011. Ex-fumante, Cláudia encomendou 20 pacotes de “cigarro de alface” dos Estados Unidos.

Caso o personagem esteja consumindo maconha, outra alternativa é a “Wizard Weed (Erva de Mago), que não causa nenhum efeito nos usuários. Em alguns casos, tabaco comum é usado na seda comumente usada para enrolar cigarros de maconha. Quando a maconha em si é mostrada enquanto o ator prepara o baseado, mistura-se sálvia para que a semelhança seja maior. Embora alguns atores insistam em fumar maconha de verdade, é comum que a equipe troque os pacotes dos mais determinados por saquinhos de orégano, que tem um cheiro muito semelhante. Além disso, há empresas especializadas (fora do Brasil) em vender Cannabis sem o ingrediente ativo Tetraidrocanabinol (THC), resultando em maconha comum, mas sem propriedades narcóticas.

Na montagem de “Sonho de Uma Noite de Verão”, com direção de Marcos Suchara em 2014 no INDAC, meu personagem fumava maconha, como alternativa eu fiz cigarros de camomila. Além de ser tranquilo pra tragar, o efeito visual é muito parecido.


Imagem relacionadaCigarros falsificados 
Comprado em lojas de magia ou on-line, eles são tubos de plástico cheios de pó. Quando um ator sopra neles (como se inalando) eles emitem o pó, que se assemelha a um fluxo de fumaça. A brasa é um pouco de tinfoil vermelho que pega bem luz teatral. O ator pode tragar o cigarro uma ou duas vezes, e casualmente colocá-lo em um cinzeiro cheio de bitucas reais. Mas nem todos garantem a eficácia desses cigarros, Olive Mannshardt diz que, se eles estão mal feitos o pó cai diretamente no chão e que se o personagem precisa estar fumando por algum tempo, está claro que os cigarros falsos não ficaram queimando.


Cigarros Eletrônicos Imagem relacionada
Cigarro eletrônico – ou ecigarro – é composto por um inalador, um cartucho, um atomizador ou chip e uma bateria recarregável. Ele acende a ponta simulando a queima de um cigarro normal e sai fumaça da mesma forma.
Ele vaporiza a nicotina, ou seja, a fumaça é apenas vapor. É mais saudável por só possuir nicotina, e mesmo se transferido para o tabaco ele teria menos subtâncias tóxicas que as 4 mil que possui um cigarro normal. Eles costumam ser vendidos com os refis com nicotina, e para os que querem parar de fumar são vendidos com menos nicotina e até sem nicotina.
Johnny Depp aparece em sua primeira cena fumando um cigarro eletrônico e mostrando como funciona, no filme “O Turista”.


CigResultado de imagem para beard man cigarretearros sem iluminação
Em muitas peças os atores fingem  acender um cigarro real e, em seguida, encontram maneiras para evitar que os cigarros sejam iluminados totalmente. Na peça Private Lives o segundo ato inicia com os amantes deitados em um sofá, apagando os cigarros. Em The Glass Menagerie , o personagem fumante sempre sentava em um local estratégico quando precisava fumar e uma combinação de luz e gelo seco faziam todo o resto.


Resultado de imagem para private lives theatreSem Cigarros
Uma boa maneira é substituir a obsessão dos personagens pelo fumo. Em um espetáculo os atores criaram um clima em que a peça girava em torno de acender um cigarro: Os personagens não poderia encontrar seus cigarros, ou então eles não poderiam encontrar um isqueiro, e isso trouxe uma grande tensão na cena, o que ajudou na construção dos personagens.


Cigarros reaisResultado de imagem para barbara paz monologo
A diretora artística Martha Lavey argumenta que o direito de fumar no palco relaciona-se com a liberdade artística. Em qualquer caso uma opção seria procurar por marcas que soltam uma menor quantidade de fumaça e cheiro. Uma coisa que deveria também ser feita é avisar nos panfletos e meios de divulgação do espetáculo.
Enquanto isso, cabe aos teatros e grupos encontrarem maneiras que funcionem para os personagens – e que causam uma quantidade mínima de transtornos ao redor.


E QUANDO SE FAZ NECESSÁRIO USAR OUTRAS DROGAS EM CENA?

Resultado de imagem para cocainaCocaína
Esta é a droga que parece ter o maior número de alternativas, mas a mais comum é uma vitamina em pó chamada Inositol, que, para ajudar, dá um pouquinho de energia quando consumida. Outras substâncias que são usadas ou misturadas para adquirir a aparência certa são leite em pó, açúcar, vitamina B pulverizada, fermento químico, farinha de trigo peneirada, frutose, açúcar de confeiteiro, talco ou laxantes de bebê.
Há ainda truques dos diretores, como ângulos de câmera no cinema, ou truque de luz nos palcos e até dos atores para disfarçar e não inalar o pó. Às vezes, o intérprete só precisa expirar com força em vez de inspirar, pois a substância se dispersa de forma rápida e imperceptível. Outra saída é cobrir o interior do canudo com vaselina, o que faz boa parte do pó ficar grudada. Outro substituto é o soro fisiológico em pó, vendido em farmácias. Sua “aparência é idêntica à droga e ele pode ser inalado sem causar danos”.


HeroínaResultado de imagem para heroina
A aparência da heroína normalmente é semelhante à da cocaína, então várias das alternativas são as mesmas. Para cenas em que o pó é diluído, porém, nem todo substituto serve. Kimberly Slosek, aderecista de NY usa açúcar e bicarbonato de sódio, pois a mistura engrossa do mesmo jeito que a heroína.


Imagem relacionadaCrack
Pedras de crack falsas são criadas pingando gotas de cianoacrilato, conhecido como super cola (ou Super Bonder no Brasil), em uma pilha de bicarbonato de sódio.


Resultado de imagem para cogumelos alucinógenosCogumelos
Até cogumelos alucinógenos aparecem em cena de vez em quando, e a alternativa é simples, basta comprar cogumelos – sem as propriedades alucinógenas – congelados.


Resultado de imagem para bebidas alcoolicasÁlcool
Com os inúmeros tipos de bebidas, há vários truques diferentes. A cerveja é simplesmente trocada por cerveja sem álcool, enquanto cachaça ou vodca são trocadas por água pura. Um copo de chá-mate ou guaraná sem gás é a alternativa perfeita para simular uísque.
Para drinques, a receita é um pouco mais complicada. O cosmopolitan, marca registrada das mulheres de ‘Sex and the City’, é criada com uma mistura de água e gelo com gotas de corante vermelho. Já o champanhe, aparentemente, não tem solução. “Pode até trocar por soda-limonada, mas não fica igual”, declarou André Kapel, especialista em efeitos especiais. Por isso, espumantes reais normalmente são usados.

E como disse uma vez um diretor com quem trabalhei: “Quando tudo é feito com verdade o público sente, se um ator está usando a cena como desculpa para saciar seu vício pessoal, vai ficar fake e o público vai saber.”

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