[Vida e Obra] Teatro Experimental do Negro

Teatro Experimental do Negro (TEN) foi uma companhia teatral brasileira fundada e dirigida por Abdias Nascimento. A ideia para sua criação nasceu em 1941, após um encontro com os poetas Efraín Tomás Bó, Godofredo Tito Iommi, Raul Young e Napoleão Lopes Filho, que desde a década de 1930 formavam a Santa Hermandad Orquídea, para assistir à peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, no Teatro Municipal de Lima. Naquela montagem, um ator branco com o rosto pintado de negro, o argentino Hugo D’Evieri, interpretava o protagonista negro.

De volta ao Brasil, Abdias do Nascimento foi preso em consequência de seus protestos contra a discriminação racial. Ainda no Presídio do Carandiru, criou com outros presos o Teatro do Sentenciado. Ao deixar a prisão, concebeu uma companhia teatral voltada para o desenvolvimento da cidadania e conscientização racial. O TEN reuniu pessoas que não tinham contato anterior com as artes cênicas. A primeira turma chegou a juntar 600 alunos, a maior parte deles vindos da classe baixa e sem escolaridade. Assim, além das leituras de textos e dos ensaios, o grupo deu aulas de alfabetização e de cultura geral. Abdias enxergava nesse contexto uma oportunidade de fazer a população afro-brasileira enxergar a discriminação que sofria e encontrar seu lugar dentro da cultura afro-brasileira como protagonista.

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A estreia da companhia foi em 1945, com O imperador Jones. Eugene O’Neill cedeu gratuitamente os direitos para encenar o texto. A escolha se justificou pela ausência, na dramaturgia brasileira da época, de obras que contemplassem o problema racial. No dia 8 de maio de 1945, o TEN se apresentou no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Aguinaldo Camargo representou o papel principal.

A primeira montagem de um texto brasileiro veio dois anos depois, com O filho pródigo, drama poético de Lúcio Cardoso. Aguinaldo Camargo vatuou ao lado de Ruth de Souza, José Maria Monteiro, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Roney da Silva. Tomás Santa Rosa assinou os cenários.

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Além da atuação nos palcos, o TEN assumiu uma postura política, integrada a entidades como a Associação das Empregadas Domésticas e o Conselho Nacional de Mulheres Negras.

Constantemente inferiorizadas, estas mulheres receberam pela primeira vez a chance de questionar as condições de trabalho que lhes eram impostas. Nas palavras de Abdias: “Teve muita “madame” que se aborreceu (…) nós estávamos botando minhocas nas cabeças de suas empregadas”. Era o empoderamento de uma classe que, historicamente, sempre teve seu protagonismo escanteado.

O TEN também promovia concursos como o “Boneca de Pixe” e “Rainha das Mulatas”, que favoreciam a beleza negra. As candidatas eram selecionadas por meio de critérios como a criatividade, conhecimentos gerais e postura ética. O TEN promoveu, em 1955, a Semana do Negro e o concurso de artes plásticas sob o tema Cristo Negro. Neste último, organizado pelo sociólogo Guerreiro Ramos junto a Abdias, foram promovidos terapias em grupo de modo a tratar os efeitos psicológicos do racismo em suas vítimas.

Uma característica comum aos textos trabalhados pelo grupo teatral era a mistura de elementos da cultura negra à narrativa. O objetivo por trás disso era trazer para o primeiro plano a história do negro e de suas manifestações artísticas, dando-lhes visibilidade.  Um exemplo desse cuidado está em Aruanda, de Joaquim Ribeiro, que foi encenada pelo TEN em 1949. Nela, dança, canto e poesia se fundiam para contar a história de uma mulher mestiça e da convivência dos deuses afro-brasileiros com os mortais. Outro exemplo é Filhos de Santo, de José Morais de Pinheiro, que mistura misticismo e candomblé para narrar a saga de trabalhadores do Recife que eram perseguidos pela polícia.

                                                               Abdias do Nascimento

O próprio Abdias do Nascimento também escrevia peças para companhia. Um de seus trabalhos de maior destaque foi Sortilégio, cujo texto foi fortemente censurado até sua estreia em 1957 no Rio e em São Paulo. O roteiro centra sua história em um triângulo amoroso entre um homem negro e duas mulheres, sendo uma branca e uma negra. A partir disso, a narrativa trabalha com a situação marginal desse protagonista, que se encontra distante tanto da cultura africana quanto da europeia e vai criar consciência sobre sua identidade enquanto negro através desse choque de realidade. O sucesso da peça fez com que Abdias viajasse à Nigéria para encenar o espetáculo em Ile-Ife. Além de Sortilégio, ele ainda produziu Rapsódia Negra, em 1952.

Teatrólogo, escritor, artista plástico e poeta, Abdias somou ao seu currículo a política, profissão que exerceu com dedicação em favor da luta pela igualdade racial. Com o TEN, não foi diferente. A companhia afirmou-se como um mecanismo de militância da causa negra. Através da revista Quilombo, eles denunciavam casos de discriminação e apoiava organizações afro-brasileiras em todo o país. Nas seções do jornal, publicava entrevistas e divulgava atividades dos movimentos negros, além de incentivar o lançamento de candidatos negros para compor as cadeiras do Congresso e defendessem propostas que beneficiassem a população negra.

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Entre 1945 e 1946, o grupo fortaleceu ainda mais suas ações políticas e ajudou na organização da Convenção Nacional no Negro, que encaminhou à Constituinte de 1946 a proposta que definia o racismo como crime de lesa-pátria, além de demandar políticas de igualdade racial, como bolsa de estudo e incentivos fiscais. Intitulado Manifesto à Nação Brasileira, o documento enviado pelo senador Hamilton Nogueira foi anulado pela Assembleia Constituinte sob a alegação de que não existiam provas de discriminação racial no país.

Para provar o contrário, o TEN passou a denunciar diversas ocorrências de racismo o que, mais tarde, daria na criação da Lei Afonso Arinos, que institucionalizou a discriminação racial como um crime. Apesar da conquista, a legislação ficou muito aquém do esperado. Uma batalha estava ganha, mas ainda havia o que reivindicar. Por isso, o Teatro Experimental do Negro organizou, em 1950, o I Congresso do Negro Brasileiro. No encontro, intelectuais negros reforçaram a necessidade de defender políticas de igualdade racial. Em 1966, o grupo lançou uma Declaração de Princípios em que se posicionou contra o colonialismo e reivindicava o mesmo posicionamento do governo federal.

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O Teatro Experimental do Negro interrompeu suas atividades em 1961, quando Abdias teve se exilar por causa da ditadura militar. No entanto, a luta continuou viva nas palavras de seu grande criador. Abdias do Nascimento registrou os passos do TEN e da luta negra em várias publicações de sua autoria. Por exemplo, ele lançou em 1961 a antologia Dramas para negros e prólogo para brancos, que …. . Anos depois, ele publicou Teatro Experimental do Negro – TestemunhosO negro revoltado e Relações raciais no Brasil. Foi perseguido durante a repressão militar e adentrou na política depois do voltar do exílio e foi deputado federal entre 1983 a 1987, além de senador de 1997 a 1999. Em 2006, esteve entre os responsáveis pela implantação do feriado da Consciência Negra. Foi um homem à frente de seu tempo, que lutou até a morte por uma população historicamente desassistida. Faleceu em 2011 aos 97 anos, mas deixou um legado na história do movimento negro.

Peças encenadas pelo TEN

  • 1945 – O Imperador Jones
  • 1946 – O Moleque Sonhador
  • 1946 – Festival do 2º Aniversário do Teatro Experimental do Negro
  • 1946 – Othello
  • 1946 – Todos os Filhos de Deus Tem Asas
  • 1947 – Terras do Sem Fim
  • 1947 – O Filho Pródigo
  • 1947 – Recital Castro Alves
  • 1948 – A Família e a Festa na Roça
  • 1948 – Aruanda
  • 1949 – Filhos de Santo
  • 1949 – Calígula
  • 1952 – Rapsódia Negra
  • 1953 – O Imperador Jones
  • 1953 – O Filho Pródigo
  • 1954 – Festival O’Neill
  • 1954 – Onde Está Marcada a Cruz
  • 1956 – Orfeu da Conceição
  • 1957 – Perdoa-me por Me Traíres
  • 1957 – Sortilégio – Mistério Negro

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