[Coluna de Quinta] Entrevista com Giovanni Venturini

“Eu já fiz muita coisa que não gostava porque era apenas isso que era oferecido. Até que eu percebi que isso é uma questão de imposição nossa também.”

A entrevista de hoje é com um artista muito querido. Giovanni Venturini, 23 anos, ator, poeta e palhaço. Eu o conheci em um set de gravação e posso afirmar que quando ele chegou, todos se iluminaram. Ele é assim, luminoso! Recentemente, esteve em cartaz com o espetáculo “A Fantástica Casa de Bonecas” em que ele e mais dois anões derrubavam qualquer preconceito e estereótipo. Sim, Giovanni é portador de nanismo e nesta entrevista nos conta a sua trajetória e como lidou com o preconceito. Ele fala de algo muito importante para nós, atores, que é a nossa postura e como ela definirá os caminhos da nossa carreira.

Sei que muitos podem achar o texto muito longo, mas fiz questão de colocar a entrevista na íntegra por acreditar ser de tamanha importância tudo o que ele nos diz. E ator não pode ter preguiça de ler, né não minha gente?

Giovanni, primeiro é um imenso prazer tê-lo aqui na nossa Coluna de Quinta. Depois gostaria que falasse um pouco sobre o seu processo de descoberta na arte cênica e da sua formação.
Eu que agradeço o convite. É uma honra poder falar em um espaço aberto, onde mostra a trajetória e os caminhos do “ser artista”. Bom, minha descoberta na arte se deu muito cedo. Eu sempre tive em mente que seria ator. Acho que muito pela influência dos meus pais e dos professores que tive. Meu pai é formado em Artes, com ênfase em cenografia, e trabalhou um bom tempo com teatro. Hoje ele é professor de Educação Artística na rede pública. Minha mãe é formada em Língua Portuguesa e é professora de Literatura. Então sempre tive muito contato com livros, peças e com o palco. Além do que, tive professores incríveis no ensino fundamental e médio. Que me apresentaram muita coisa boa, seja na música, na literatura, no teatro, no cinema, na arte em geral. Professores realmente diferenciados.
Sempre tinham montagens de peças teatrais na escola, relacionados ao tema que estudávamos. Eu adorava essas aulas. E eles sempre me incentivaram, e diziam que eu levava jeito pra coisa. Eu fui acreditando. (rsrsrs)
Mesmo com tudo isso a meu favor, ainda tinha aquele medo da profissão; aquela insegurança da instabilidade;  aquele preconceito embutido pela sociedade. Então acabei indo fazer faculdade de Gestão em Turismo. Trabalhava em uma Operadora de turismo durante a semana, e levava os trabalhos artísticos mais aos fins de semana. Até que chegou um momento que começaram a se abrir muitas portas na arte. Eu percebi que era a hora de largar tudo e arriscar. Foi quando em 2012, abandonei o meu emprego fixo, terminei a faculdade, pois faltava pouco para finalizar, e comecei a viver “só” de arte. Desde então não parei mais, e as portas não pararam de se abrirem.

Eu não tenho nenhum estudo técnico, específico na área de teatro. Apenas oficinas livres que fiz. Mas a parte teórica e técnica me fazem muita falta. Tudo que sei foi de curioso, e pelos trabalhos que fui fazendo e aprendendo na raça. Quero muito estudar esse ano. Acho importante ter esse aprendizado que tive da vida, do fazer, da prática… mas acho essencial estudar mais profundamente. Ainda tenho dúvidas do que e aonde vou fazer, mas essa é uma das metas desse ano!

Você teve uma experiência anterior com o público infantil em “Chiquititas” e agora, novamente, na novela “Cúmplices de um Resgate”, que irá ao ar no segundo semestre. Como tem sido trabalhar com o público infantil?
Na verdade eu sempre tive muita experiência com o público infantil. Tanto no teatro quanto na vida (rsrsrs). O fato de eu ser anão desperta muita curiosidade das crianças. E muitas vezes um olhar inocente e livre de preconceito. A sociedade, a mídia e os adultos é que cultivam o preconceito. Então, trabalhar para um público infantil é muito gratificante e divertido. A maioria das peças e trabalhos que fiz eram voltados para o público infantil e/ou ligados ao circo, e linguagens lúdicas. O retorno de Chiquititas foi muito bom. Apesar do Dr. Golias Pequenotti ser um personagem pequeno (sem trocadilhos, rsrsrs) e que apareceu pouco na trama, foi um respeito e um reconhecimento muito gostoso na rua.  Agora em “Cúmplices de um Resgate”, ganhei um personagem fixo, do início ao fim da novela. É um passo muito importante para mim, e para a quebra do preconceito (que sim, ainda existe) nessa área artística. Não posso revelar muito ainda, mas é um personagem engraçado, e que estou adorando fazer. Acho que as crianças vão gostar bastante.

Além de ator, você também é palhaço e poeta. São artes complementares para você? O que entrou primeiro na sua vida?
Creio eu que toda arte é complementar. A arte sempre se soma. A atuação e o palhaço, que eu me lembre, entraram simultaneamente na minha vida. Eu digo que minha carreira começou mesmo com as visitas em orfanatos, hospitais infantis e asilos. Eu tinha uns 14 ou 15 anos e entrei para dois projetos sociais que realizavam essas visitas, utilizando a linguagem do clown, do malabares, do circo em geral. Era muito gratificante e aprendi muito participando desses projetos. Aprendi a reclamar menos da vida, e também como a arte pode incentivar e mudar, mesmo que por um período curto, a vida de muitas pessoas. Foi um primeiro passo para eu seguir nesse ramo.
Já a poesia, talvez tenha entrado até mesmo antes das duas artes supracitadas. Eu sempre gostei muito de escrever, desde a infância. A minha aula favorita era literatura. Em 2009 comecei a compartilhar meus textos em um blog. Escrevia sem pretensão, e apenas amigos acompanhavam esse blog. Mas só em 2013 que a poesia se tornou constante e tomou uma importância maior na minha vida. Conheci muitos poetas bons, e contemporâneos a mim.
Aquela história de que poeta bom é poeta morto, é mentira. Rolam muitos saraus em periferias, muita gente com livro publicado de forma independente, e a cena poética é muito grande. Descobrir isso me incentivou a continuar escrevendo e a ler esses “poetas novos”. Sair um pouco dos clássicos (mas jamais abandoná-los).

Até que conheci o “Menor Slam do Mundo”. Encantei-me pelo jeito dinâmico, e instigante de fazer poesia. Slam é uma batalha de poesias, que acontece em vários locais do mundo, e tem uma série de regras. Já o Menor Slam do Mundo é uma batalha de poesias de até 10 segundos, e que quebra muitas dessas regras (rsrs). Quando conheci o “Menor” ele era organizado pelo Daniel Minchoni, Ge Ladera e Sinhá (procurem saber sobre esses poetas porretas!). Comecei a frequentar, e o Daniel me convidou para passar a integrar essa equipe incrível e dividir a cena de apresentador do evento com ele. Desde então, não sai mais e é um projeto que me dá muito prazer em fazer parte. (#procuremSaber  rsrs).

Tive o imenso privilégio de te assistir no teatro em “A Fantástica Casa de Bonecas”, texto onde Ibsen tratou da submissão da mulher ao homem no final do século XIX. No espetáculo ocorre uma ruptura desta submissão, uma ascensão psicológica da mulher que passa a se empoderar de forma discreta e articulada. O que você acha que mudou de lá para cá? A mulher ainda precisa lutar tanto assim ou a sociedade já nos vê de outra forma?
Um clássico é sempre um clássico! Como foi gratificante e importante fazer parte dessa montagem. É um texto, que infelizmente, não perdeu sua contemporaneidade. Claro que, salvo as devidas proporções da época em que foi escrito para hoje. A mulher conseguiu muito espaço de lá para cá, mas ainda há muito pelo que lutar. Ainda existe um machismo, ainda existe um preconceito (camuflado). E digo isso em relação a tudo. Por isso essa montagem foi tão importante. Colocar atores anões para fazer os papeis masculinos e atrizes de estatura “normal” para fazer as personagens femininas, foi uma subversão e uma simbologia incrível, em diminuir o homem perto da mulher, mas ao mesmo tempo mostrar como elas tinham que se rebaixar, rastejar para estar no mesmo “nível” dos homens. Além do que essa montagem também serviu para mostrar que nós (atores anões) também somos capazes de fazer personagens sérios, de fazer dramas, de fazer clássicos do teatro. Foi um grande passo para nos enxergarem em outros lugares que não o musical infantil, o espetáculo circense, o personagem caricato, cômico, estereotipado. Uma pena ter durado tão pouco tempo. Foi uma montagem importante.

Ser portador de nanismo dificultou a sua conquista do mercado de trabalho como ator? Você acredita que existe ainda o preconceito de a maioria colocar os atores com nanismo somente em papéis cômicos e estereotipados?
Seria hipocrisia dizer que não. Infelizmente, não só a arte, mas a sociedade ainda é muito preconceituosa. Isso é um reflexo de gerações que se acostumaram a nos enxergar como o bobo da corte, o anão de circo, o palhacinho, e por ai vai. A mídia contribui e muito para isso. Colocando-nos apenas em papéis estereotipados, cômicos, seres mitológicos e fantasiosos, ridicularizados, e até agredidos fisicamente. Eu já fiz muita coisa que não gostava porque era apenas isso que era oferecido. Até que eu percebi que isso é uma questão de imposição nossa também. Enquanto houver atores anões aceitando esse tipo de “trabalho”, o mercado vai continuar oferecendo esse tipo de trabalho. A partir do momento que você se impõe a ele e diz: “não, eu quero ser reconhecido pelo meu trabalho de ator, antes de ser reconhecido pela minha condição física”, aí passam a te enxergar de outra forma.

O Brasil tem muito que aprender nesse quesito ainda, mas muito já está mudando. Isso é um reflexo também dos EUA e da Europa, que já oferecem papéis dignos a atores anões. Peter Dinklage vem fazendo um trabalho magnífico em Game of Thrones. É um artista referência para mim e que tem uma postura maravilhosa. Já acompanho há muito tempo sua carreira, que é linda, e muito extensa. Mas só agora que passaram a enxergar o ator espetacular que ele é. Muito se deve a postura e a forma como ele quis consolidar sua carreira. Não condeno quem aceita qualquer tipo de papel, personagem e/ou situação para aparecer na mídia. Apenas não é a forma como eu quero aparecer. Por isso tenho essa postura.

E por fim, nos conte sobre seus atuais e futuros projetos.
Bom, atualmente estou bastante dedicado à novela “Cúmplices de um Resgate”, que estreia entre final de Julho e início de Agosto. Quero lançar meu livro ainda este ano, de forma independente, pelo Selo DoBurro, administrado pelo Daniel Minchoni. Embora meu blog esteja bastante parado ultimamente, pretendo continuar com ele. Aqui vai o endereço para quem quiser dar uma lida nos meus textos: http://anaosergigante.blogspot.com.br
Como disse anteriormente, pretendo me dedicar aos estudos este ano também.
Tenho muitas ideias e peças presas na minha mente. Um dia quero soltá-las para o mundo. E como a vida não pára, quem quiser continuar acompanhando meu trabalho e saber o que ando fazendo, pode acessar minha página oficial do facebook: https://www.facebook.com/Giovanni.Venturini07
Gratidão pela oportunidade e o espaço cedido para eu divulgar um pouco da minha vida e minha carreira.

Carla Buarque


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“Carla Buarque é atriz e usa a escrita como válvula de escape para as agruras do mundo”.

 
Blog / FacebookInstagram: @carlammp

 

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