[Quarta Parede] O segredo do sucesso é…

Quando eram crianças, Celso e Ricardo foram protagonistas de um comercial na TV de uma conhecida marca de brinquedos, onde lutavam mostrando o poder dos bonequinhos de plástico. Na época, Celso foi impedido pelos pais de fazer mais comerciais para não atrapalhar os estudos. Nunca mais viu, ou ouviu falar em Ricardo, e sentiu muito por isso, já que ficaram amigos. Somente quando adulto, após uma má sucedida carreira de bancário, decidiu se profissionalizar como ator.

Certa vez, assistindo a uma apresentação de Hamlet, de Willian Shakespeare, reconheceu na plateia Ricardo, o seu companheiro de propaganda na TV. Ficou muito feliz em revê-lo! Resolveu abordá-lo quando o espetáculo terminou. Ricardo foi um tanto seco com a abordagem, mas mudou rapidamente quando percebeu que era Celso, expressando certo entusiasmo. Já o ator o convidou para sair e conversarem. No dia marcado, em uma pizzaria, Ricardo fez diversas críticas à montagem de Hamlet. Falou mal dos atores, do palco, da iluminação, da direção e pelo fato da montagem ser uma versão nordestina. Celso preferiu ouvir e não rebater a opinião do rapaz. Ao encerrarem a conversa sobre Hamlet, Ricardo contou como sua vida estava atualmente. E desabafou! Disse que desde criança tentou várias oportunidades na televisão, incluindo testes em novelas, após o sucesso do comercial, mas…

– Não sou bonito! Tenho o nariz grande, e sei que sou estranho… Talvez aquela propaganda tenha sido uma exceção!

Realmente, Ricardo não é um rapaz de beleza comum. Não tem o estereótipo de um galã, mas é muito expressivo e de boa aparência. Celso ouviu de Ricardo que, sem chances na TV, estudou na melhor e mais cara escola de teatro de São Paulo e mesmo assim as oportunidades não vinham. Era reprovado na maioria dos testes e atualmente não estava trabalhando nem na televisão e muito menos no teatro. Penalizado, Celso fez o convite para Ricardo atuar em uma produção na companhia de teatro, na qual faz parte. Seria a sua estreia como dramaturgo. A peça é um drama que mostra dois irmãos que não se entendem, tendo que cuidar da mãe, uma senhora com uma doença terminal. Ricardo aceitou o convite. Porém, arrogante e prepotente, reclamou de tudo! Do espaço onde ensaiavam. Que era em um teatro apropriado, porém pequeno. Queixou-se do elenco, da diretora e do texto. Carolina, a diretora da montagem e os atores do espetáculo se revoltaram. Afinal, mesmo sendo muito talentoso e inteligente, suas atitudes não compensavam sua competência. Mesmo não faltando em nenhum ensaio, Ricardo desdenhava de tudo o tempo inteiro. Durante uma reunião, Carol resolveu afastá-lo da peça.

Celso ficou arrasado, gostava muito de Ricardo, mesmo ciente do erro de seu comportamento. E sabia que ele era o ator ideal para interpretar Fábio, o filho mais velho da protagonista. Ciente do poder transformador da arte acreditava que seu amigo poderia rever suas atitudes. Foi procurá-lo, para tentar uma solução.

– Posso conversar com a Carolina, ela ainda não decidiu quem vai substituir você! Estava indo muito bem no papel. Todo o elenco reconhece o quanto é talentoso. Sem contar que seus conhecimentos nos agregam muito!

– A sua peça é boa, mas é um grupo muito amador, não acho que vai fazer sucesso… Se vender para uma produtora de renome cuidar da produção, pode ser que dê certo.

– Eu confio no trabalho da companhia e tenho certeza que você mudará de opinião, pois a equipe é muito profissional! Pense na oportunidade. Você poderá crescer muito com a gente!

Ricardo ignorou a bondade do amigo e disse friamente:

-Está tudo bem, Celso. Já tenho outros projetos em vista.

Celso sabia que não existiam projetos e sabia também que o motivo de Ricardo não conseguir êxito em sua carreira não era por conta de sua aparência. A televisão pode ser muito cruel e preconceituosa, mas há espaço para pessoas com perfis diferentes e com muito talento. No teatro, sendo este um espaço mais livre dos padrões estéticos, é a mesma coisa. O problema é que Ricardo tem a soberba maior do que a humildade e a ignorância maior do que o bom senso. Além de tudo, é ingrato e não reconhece os próprios erros. Aonde chegará um profissional assim? A nenhum lugar. Mesmo tendo muito talento. E pessoas generosas como Celso? A sua peça estreou. E fez muito sucesso.

Texto de Luana Manso
Revisado por Zilma Barros
Foto: Márcia Nobre, Rodrigo Oliveira, Gustavo Freire e Lina Bertossi (Atores)

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