[Quarta Parede] A imortalidade do teatro!

Uma das coisas mais tristes na carreira artística é a desistência dela. Já vivemos de um ofício pouco valorizado, onde muitos não prestam atenção a tantas artes maravilhosas espalhadas pelo país. É lamentável ver teatros fechando suas portas por falta de recursos para continuar seu trabalho. Não basta o auxílio de editais, que nem sempre colabora para que todas as companhias e escolas possam se manter, os espaços teatrais dependem do público. Por mais que seja um serviço, a arte não é mercadoria para ser vendida de forma vulgar e, muitas vezes, com o intuito de alienar o espectador. Assim pensava Mariano quando conseguiu um espaço teatral para ensaiar os espetáculos com o seu grupo.

A cidade na qual Mariano mora é pequena e dominada por uma família de políticos corruptos, que “ajuda” a população com falsos programas governamentais em auxílio aos moradores de baixa renda, sendo que este benefício não passa de uma compra de votos barata. Mas a corrupção é forte, e poucos realmente batem de frente com isso. Mariano e sua trupe tinham esta missão! A companhia teatral estreou uma peça que fala justamente de um político bem sucedido, que engana a população com falsas promessas. Um espetáculo ácido, irônico, com artes circenses que estava começando a atingir o público da cidade com os comentários e piadas sobre a administração pública. Porém, chegando aos ouvidos do prefeito que, com seu poder conferido pelo voto popular – comprado – ele simplesmente… Mandou fechar o teatro!

E agora? Para Mariano, a arte serve para atingir a quem necessita dela e não para obter fama numa grande emissora de TV, por exemplo. Sentia que a cidade onde nasceu e cresceu precisava do tipo de trabalho que realizava! Afinal, era um alerta para aquelas pessoas acordarem do falso mundo em que estavam vivendo. E sem espaço para ensaiar, como iria continuar? Os atores do seu elenco precisavam trabalhar, portanto, não poderia segura-los até encontrar uma solução.

Certo dia, andando na rua percebeu que estava sendo seguido por uma cadela preta de olhos amendoados. Como estava atordoado pelos seus problemas, a princípio não deu muita atenção, mas notou que ela não desgrudava dele de jeito nenhum! Então parou, fez uma graça com ela e brincou um pouco com a cachorrinha. Nisso teve uma grande ideia! Pegou a cadela no colo e disse em voz alta:

– É isso! Eu posso continuar! Se eu não posso contar com um elenco, eu posso contar com algo diferente! – Disse olhando para a cachorrinha, que feliz, abanava o rabo, como se entendesse tudo que o ator dizia.

Mariano adotou a linda cadelinha e resolveu transformá-la em colega de cena. Como assim? Devem estar se perguntando… Muitos animais, bem treinados, dão certo na arte. E por que não apostar na expressividade deles para realizar uma crítica a uma situação política e social? O comando de sua cidade tirou de Mariano a oportunidade de continuar com a sua expressão artística. Com o animalzinho de estimação, lançou uma peça nas ruas, onde a cadela era a dona da situação, e o seu escravo, é o personagem interpretado por Mariano. Nisso, entendemos que às vezes, esses seres vistos como animais irracionais tem mais raciocínio e amor que os homens, vistos como animais racionais…

Você que sonha em ser artista, saiba que a nossa profissão tem um poder transformador na sociedade e precisa incomodar sim, quando necessário! E se alguém quiser barrar a sua arte, utilizando o poder que possui, diga não! De uma forma ou de outra, continue seu trabalho. Nos palcos ou nas ruas, o teatro nunca morre!

Texto de Luana Manso
Revisado por Zilma Barros
Foto: Paris (Mascote do Teatro Escola Habitart)
Fotógrafo Responsável: Diego Nunes

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