[Coluna de Quinta] O beijo em todos os asfaltos

Esta semana o MUBE, em São Paulo, promoveu uma palestra sobre Nelson Rodrigues e o diretor teatral Marco Antonio Braz disse uma frase que me calou fundo: “O Beijo no Asfalto é de uma desgraçada atualidade” e é. Tenho até a sensação de que a sociedade é mais preconceituosa hoje do que era em 1960 quando o texto foi escrito. Naquela época os políticos não se preocupavam tanto com que bocas o seu eleitorado estava se relacionando.

Ao mostrar um beijo entre duas mulheres em sua novela, a principal emissora de televisão do país viu sua audiência despencar. Ainda suspeito que o motivo tenha sido por se tratar de um respeitoso e amoroso beijo entre duas senhoras, fosse entre duas jovens e esculturais atrizes, a repercussão teria sido outra. Mas importa aqui é porque a sociedade se preocupa tanto com a sexualidade alheia? Será que não entendem que “enquanto todos não forem livres, eu também não serei livre”, como bem pontuou Mario Sergio Cortella?

O papel do teatro é justamente o de questionar e transformar a sociedade. Questões de ordem sociais, políticas e psicológicas são abordadas de forma brilhante nos palcos para que o público reflita e para que, muitas vezes, vendo suas atitudes ali representadas, possam ter a noção do quão absurdo aquilo é. O problema é a abrangência. O teatro não atinge a população como a televisão o faz. E o público de teatro, por sua própria formação, já aprendeu a deixar o preconceito um pouco de lado. Mas o público educado pelas novelas não. E esse, justamente esse, que mais precisa ser transformado, não tem acesso a um conteúdo mais independente comercialmente e que diga o que precisa ser dito.

A Cia de Teatro Acidental trouxe em “O que você realmente está fazendo é esperar o acidente acontecer”, escrita a partir de “O Beijo no Asfalto”, a discussão a respeito da homofobia e do discurso de ódio. O espetáculo volta em cartaz no SESC Campinas à partir do dia 28 de agosto às 20h.

O Grupo de Segunda estreia “O Beijo no Asfalto” em clima de filme noir, dia 26 de agosto no Espaço Parlapatões, direção de Jair Aguiar, com sessões às quartas e quintas às 21h e fica até 15 de outubro.

E dia 4 de setembro estreia “O Beijo no Asfalto” do diretor Marco Antonio Braz no Teatro Augusta, após cumprir temporada no Rio de Janeiro. Aos nossos amigos que acompanham a página e não conhecem o texto, além de
homofobia, o enredo também discute incesto, aborto, bullying, violência policial e o poder da mídia, assuntos nada ultrapassados mesmo 55 anos depois de escrita a peça.

Foto: Zé Naklem / “O Beijo no Asfalto” – Grupo de Segunda

Carla Buarque


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“Carla Buarque é atriz e usa a escrita como válvula de escape para as agruras do mundo”.

 
Blog / Facebook / Instagram: @carlammp

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