[Quarta Parede] A arte e os belos caminhos

O talento do pequeno Miguel era notável. Uma simples participação num espetáculo infantil foi a maior prova disso. Alexandre Arantes, diretor de teatro e amigo de Cintia, a professora da criança, queria que ele fizesse parte do elenco em sua peça teatral, uma produção profissional, com elenco adulto.

– Crianças são puras e verdadeiras e precisamos de atores com esta essência! Infelizmente com o tempo, os atores perdem essa naturalidade, pois se envaidecem demais e ficam emaranhados por técnicas e mais técnicas.

Alexandre estava desiludido, pois para ele não existiam grandes atores, mas sim atores que sabiam atuar mecanicamente. Queria um dia poder dirigir um talento espontâneo, que não estivesse interessado em dinheiro ou fama. De tanto ver a empolgação de sua amiga Cintia com os seus alunos, resolveu conhecer o trabalho da colega, que a cada dia tomava conta de sua existência. Logo de início, Miguel o encantou e viu nele um grande ator.

– Precisamos conversar com os pais dele e pedir autorização. Ah, e tem o sindicado dos artistas, mas podemos falar com o pessoal de lá e…

– Vá com calma, Alexandre! O Miguel é uma criança muito especial… na verdade ele não tem família. O teatro tornou-se a sua única família.

A professora explicou ao diretor, que a mãe do menino havia abandonado e que ele teve uma vida muito difícil, vivendo ao lado de um pai violento. Disse que a assistente social, amiga sua, indicou o teatro como possibilidade de desenvolvimento do jovem. O diretor ficou ainda mais encantado e tinha certeza que o menino deveria ter sua carreira incentivada.

– O teatro é uma fuga para muitos, eu concordo! Mas ser artista é uma profissão como qualquer outra e este menino tem que ser um ator profissional!

Alexandre fez de tudo para convencer a assistente social a autorizar a ida de Miguel para a peça que estava dirigindo. Mas e a criança? Cintia conversou com o menino para saber o que pensava disso tudo, não acreditava que ele aceitasse facilmente a proposta, pois foi muito difícil o seu desenvolvimento. No início, nada o estimulava no palco, porém só o fato de ter conseguido superar isso e ter apresentado um espetáculo, já era uma vitória. A criança não precisava pular uma etapa de aprendizado para assumir a responsabilidade de uma produção profissional. Mas, Miguel ficou feliz e quis sim, participar da peça do Alexandre para surpresa de Cintia.

– Quero ser ator, sim! É muito legal trabalhar atuando! Posso um dia ganhar bem e... ajudar minha mãe.

– Miguel, ganhar dinheiro na arte é um pouco complicado… não vá pensando que será tão simples.

– Não tem problema! Eu quero! Quero muito mesmo! – Disse abraçando a professora.

A sinceridade da criança emocionou Cintia.

E Miguel foi para a peça de Alexandre, uma produção adulta com atores profissionais. O menino agiu como um deles, não era indisciplinado, ao contrário, ouvia tudo o que o diretor falava. O elenco estava encantado com aquele talento. Realmente… quando não esperamos mais nada da vida, a arte vem e nos mostra novas perspectivas. Agarrar-nos a ela não é uma fuga, mas a motivação para continuar e reconstruir aquilo que já estava perdido.

E Miguel seguia por este belo caminho!

Por Luana Manso
Revisado por Zilma Barros

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